"ENQUANTO NÃO CHEGAS..."
Dirce Araujo Jorge de Assis
Prefácio de J. G. de Araujo Jorge


Dirce
acontece que somos primos-irmãos. Quero, entretanto, que você saiba que
esta não é razão porque compareço à primeira página de seu livro.
Desde a primeira vez em que você me mostrou seus poemas, achei que você
tinha sensibilidade bastante para querer trocar em poesia muitos momentos
de sua emoção. E não apenas sensibilidade: mas esse indefinível dom que
realiza o milagre de transformar a vida em poesia.

Não vou dizer aqui que você já encontrou sua forma de expressão. Não sou
crítico nem ponho banca de doutrinador estético, num tempo em que
críticos e poetas ditam e proclamam regras de poesias, esquecendo-se de
que, poesia mesmo que é bom, não fazem.

Muitos dos seus versos ainda vêm com laivos de prosa. Outros, não conseguem
bater asas, e se contentam com caminhar, ainda que com certa graça, mas
com os pés no chão do prosaico. Nem sempre poesia é vôo, mas poesia é
sempre altitude interior.

Todos nós que bateamos palavras, lutamos como mineradores, como
garimpeiros, mas nem sempre conseguimos nos livrar da areia e da ganga.
O importante, é que seu veio é autêntico. O importante é que as pepitas já
luzem em sua batéia. Agora, é continuar na faina, com amor e, por que
não dizer? ambição.
Seus melhores versos, para mim, são aqueles subjetivos, em que você traz
de você mesma, de sua muita ou pouca vida, alguma coisa que é a vida de
todos nós. Aqueles em que você, com a simplicidade de uma banhista a sós;
se desnuda num auto-confessionário. E assenta bem à sua feminilidade
a simplicidade e o tom smorzando de suas confissões:

" Eu sabia que virias.
Tudo me falou de ti antes mesmo
que eu soubesse como serias ... "

E a conclusão:
"Sem que eu soubesse compreender
ou resistir, chegaste onde sempre estiveste.
Tomaste corpo e forma, tu
que sempre exististe,
e te apossaste de mim que já era tua,
que sempre fui tua
desde os dias sem fim à tua espera ... "

Desde o primeiro deslumbramento diante das coisas, que o homem tem
tentado definir a poesia. Para que? Que é o fogo? E a água? E o ar?
E o azul do céu? E uma flor? E um pássaro?
E para que chamar a ciência e as palavras em socorro do que nunca
poderá satisfazer aquela misteriosa emoção que dá à vida dimensões
desconhecidas, e ao homem, urna estranha profundidade em si mesmo?

Gosto realmente de muitos dos seus poemas. Citarei alguns: "Acalanto",
"Lá de fora ...", "Marinheiro", "Espera", "Confissão", "Tão pouco ..."
"A onda ...", "Brincando de vida", "Pergunta às tuas mãos ... ",
"O hoje ...”

Preferia que você não tivesse incluído alguns trabalhos no livro. Sei lá!
Isto de gosto é relativo. Mas já que você me pediu opinião, quero ser
sincero. Não se preocupe, entretanto. Os seus leitores compreenderão que
é assim mesmo, os primeiros degraus começam do chão.

O fundamental é que você ame, sofra, viva, - é que você viva e sinta
principalmente a necessidade insopitável de dizer, de chorar, de cantar
em palavras, em palavras que traduzem e aliviam, como a chuva esvazia
a nuvem e aclara os céus.

Esta "Onda" por exemplo, me envolveu em seu ritmo, em sua linguagem
poética:
"No mar tão grande
um barco enorme, escuro ...
Bate a onda no casco duro
e volta, lá tão de longe
pra se derramar
na minha praia ...
Pra vir jogar
na mesma areia
onde me deito, solitária,
tua lembrança,
maior que o barco
maior que o mar
que nos separa ... "

Verdadeiramente não há nada de novo sob o sol. O novo, é apenas
aquele ângulo pessoal da beleza, em que o artista às vezes se coloca.
Daí o sabor de novidade destes versos:

" . .. nas tuas mãos de garoto
que se quebra
para ver o que há dentro?
Não importa ... Vem.!
Profana meu jazigo,
ressuscita-me, que eu vivo
enquanto brincas de vida comigo ...

É um achado feliz do seu lirismo este verso:

"eu vivo ... enquanto brincas de vida comigo ...”

Só este verso justificaria a publicação de seu livro. Mas há outros.
A certeza da insatisfação, a eterna insegurança do conseguido,
impregnaram de amarga filosofia este belo poemeto;

"Eu sou o hoje que passa.
O ontem que fui, já nem sei mais ...
Cada dia me mudo
para outra que pensa, que sente,
que sonha, como ontem,
e diferente de amanhã" .

Estes versos, Dirce, me deram a convicção de que você, antes de ser Assis,
é Araujo Jorge. Há de viver a inquietação que trazemos no sangue.
Que viva!
E que a transforme em poesia para libertar-se, se esse é o seu destino.

J. G. de Araujo Jorge – 1961

( Prefácio de J. G. de Araujo Jorge do livro
"Enquanto não chegas..." Dirce Araujo Jorge de Assis
ou Dirce de Assis Cavalcanti, conhecida como DAJA,
é filha de Maria Antonieta de Araujo Jorge e
Dilermando de Assis)