

O POETA FALA I (Comentário de J.G. de Araújo Jorge na 7a edição de "Bazar de Ritmos" ) Este livro vem acrescido de alguns poemas (desde a 5.a edição) encontrados posteriormente em pastas e gavetas, Poemas da mesma época, e que se integram, portanto, perfeitamente, ao espírito do livro. A partir desta edição, acrescentei mais um soneto, "Silenciosamente", que permanecia fora de minha obra e se encontrava numa antiga revista já desaparecida. ("Aspectos", 1939) Silenciosamente Seguimos assim, juntos, felizes, Juntos, felizes, pela vida a fora... - Tu, no silêncio em que mais coisas dizes! - Eu, no silêncio em que me encontro agora! Meu passo há de seguir por onde pises! E a tua mão, que em minha mão demora, há de, com o tempo, até criar raízes, unindo vida a vida, hora por hora... Seguiremos assim, como bem poucos, bendizendo na nossa trajetória os que souberam como nós ser loucos... Loucos de amor, ébrios de amor - seguindo para um mundo de sonhos, para a glória do silêncio que vamos repartindo! Poderia dizer que este livro marca o meu primeiro encontro com a Vida. Se "Meu céu interior" é mais sonho, impressão imaginativa e romântica das coisas, o romantismo de "Bazar de Ritmos" lança as suas primeiras raízes no chão, colhe impressões marcadas de terra pelo caminho dos sentidos. É o livro que fixa esse período de transição entre a juventude e a mocidade plena, sua filosofia, seus problemas, seus arroubos, seus resíduos de ingenuidade. O "literário" está presente nele, de forma evidente, porque a vida apenas se insinua, embaçando com seu calor autêntico esse ou aquele poema. É, entretanto, um livro muito mais de adolescência, - daí esse sentimento de amor, inquieto e deslumbrado, que o percorre todo, e que hoje ainda me perturba e emociona quando o reencontro. Agita-se aqui uma alma diante do inédito, em pleno madrugar. A juventude é uma idade difícil ingrata, em que os conflitos se acumulam sem solução, e se resolvem por explosões íntimas que tantas vezes nos ferem e marcam para sempre. Este livro é um sismógrafo que guardou todos os seus abalos, não em gráficos, mas em versos. Relendo suas provas para novas edições estremeço ainda à lembrança dessas emoções, relampejando como distantes "calmarias" E me sinto, às vezes, como um pai complacente, experiente e livre revendo num filho jovem, as velhas emoções que um dia foram suas. Sim, gosto deste livro, como de um filho em quem vemos reproduzidas,. na inquietação da sua idade, as nossas melhores qualidade e os nossos mais perdoáveis defeitos. Afinal, que são os livros, senão filhos singulares que não crescer conosco, e que ficam guardando as impressões do que um dia já fomos? São "arquivos" de nós mesmos, "eus" que vamos deixando pelo caminho, a viverem de palavras, como fantasmas em nossa lembranças. Ao rele-los, encontramo-nos com nas velhas fotografias, e custa-nos acreditar que aquele já tivesse sido o nosso rosto, e aquelas, as nossas feições. Mas, não há dúvida' que somos nós: basta olhar nos olhos..
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