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        Resposta a "Perguntas de Natal" (M.H.)



Por que me buscas para além dos mundos
Que teus sonhos criaram,
Se eu estou presente nos abismos fundos
E na Altura que as asas conquistaram?

Por que perdes, aos poucos, a coragem
De encontrar novas diretrizes,
Se eu vivo nos acordes da folhagem
E no silêncio das raízes?

Por que interrogas, em palavras vãs,
Pesadas como açoites,
Se me encontras no riso das manhãs
E no pranto das noites?
Por que vacilam, entre tantas mágoas,
Os teus passos incertos,
Se permaneço no rumor das águas
E na secura dos desertos?

Por que te crucificam mil anseios
Em cada hora mais tenazes,
Se eu canto em todos os gorjeios
E até nos versos que tu fazes?
Por que te negas a seguir a viagem
No pavor dos escolhos,
Se eu estou no fundo de qualquer paisagem
E até no fundo dos teus próprios olhos?
Por que hás-de desistir da caminhada
Julgando o fim já perto,
Se eu caibo numa pétala fechada
E num vulcão aberto?

Por que pensas que não me hás-de encontrar
Por mais que acendas o farol,
Se eu moro na brancura do luar
E no rubro do Sol?
Levanta bem os sonhos que são teus
E que a descrença naufragou,
Que me encontras no mar, na terra e até no Deus
A quem perguntas onde estou.


(Resposta de Maria Helena ao poema "Perguntas de Natal"
de JG  in " Concerto à Quatro Mãos  " 1a edição1961 )


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