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" Ímpeto "
Vai até onde a mágoa te levou,
Entre procelas
E desalinhos...
O vento que parou
Não volta a encher velas
Nem a girar moinhos.
Mesmo que a Vida esteja quase morta,
Ergue os braços humanos
Até às nuvens de cambraia
E vai! A ti que importa
Que a dor tenha a extensão dos oceanos
E a altura do Himalaia!
Sejam as horas vitoriosas.
Sejam sem cor,
No coração chagado.
Coroado de espinhos ou de rosas,
Vai para a frente seja como for.. .
Mas não fiques parado!
Vence as renúncias e os escombros
Que a sina te impuser
E não apoies as mãos nos próprios ombros,
Mas em outros quaisquer.
Numa ansiedade que te apouca,
Encharcando de raiva e de suor
Os lábios sós.
Não grites "Para!" à tua boca,
Que a tua boca sabe já de cor
O som da tua voz.
Antes, numa expressão ousada
Sem frieza ou desdém,
Canta aquele que passa em tua estrada,
Chama, liberto de qualquer quebranto
Ou de qualquer receio,
E sentirás na escala do teu canto e de gorjeio
Um misto de certeza
Alegre e destemido,
Não recuses o frêmito da origem !
Deixa a quentura do ninho!
Inda que o mundo inteiro esteja possuído,
Ha sempre terra virgem
Para os que tem fome de caminho.
Se as nascentes da noite são malsãs,
Esquiva a boca mole
Ao vinho dos crepúsculos:
Bebe a cor das manhãs
E hás-de sentir o Sol
A engrandecer-to a alma e a retesar-te os músculos.
Deixa esta margem pela outra margem
Que te estende mil braços
E funde na ousadia da viagem
A indecisão que te escraviza os passos,
Vai num ritmo sem par, sempre mais fundo
E cada instante mais veloz,
Que Deus não nega os atalhos do mundo
À tentação de cada um de nós.
Não maldigas os ímpetos que domem
A pele ardente a farta.
Já que és de argila, vive como um homem
E sem temer que a argila parta.
Desânimo, por quê e para quê
A alma to concebeu,
Se tudo aquilo quanto o olhar te vê
Pode ser teu!?
Irmão: anda comigo além das coisas rasas!
Entoa o canto que eu entôo
E onde me excedo a toda me alvoroço.
Que é nosso o vôo
E são nossas as asas
E o Céu também é nosso !
Despe o manto cruel da desventura
E vive como toda a gente
Num mundo por ti mesmo edificado.
Junto do chão ou conquistando Altura!
Seja lá como for!, vai para a frente!
O que não podes é continuar parado!
( Resposta de Maria Helena ao poema
"Desânimo"
de JG in " Concerto à Quatro Mãos " 1a ed.1961 )
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