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         "
Certeza " (M.H.)


Senhor:
Despe-me a humanidade que me apouca
E dá-me um maior bem,
Que eu tenho uma vontade louca
De segurar as ondas
No seu vaivém...

Dize a minha fraqueza que se afaste
Ou se prostre a meus pés
E à minha voz dá força que lhe baste
Para mandar na força das marés.
Deixa-me ser, isenta de embaraço,
Mais do que as outras gentes:
Que sem entraves nem cansaço
A energia do meu braço
Afaste ou aproxime os continentes.
Quero ser eu marcando as rotas
E dando aos ventos direção
E que no Espaço o vôo das gaivotas
Obedeça ao sinal da minha mão.

Quero ser eu na noite inteiramente nua
Sossegando as espumas ao luar,
Quando a sede branquíssima da Lua
Vai beber água ao mar.
Que se morram em mim prantos e agravos
Que o Destino gerou:
Quero ser eu dobrando os cabos
Que inda ninguém dobrou.
A arder em ânsia,
Meus dedos imortais
Desenharão no enigma da Distancia
O sinuoso perfil dos litorais.
Quando a tardinha naufragar em oiro,
Aos areais pelo vento despenteados,
Hei-de-lhes dar o movimento loiro
Dos meus cabelos desmanchados.

De tal maneira me darei ao mar
Nas meias tintas dos crepúsculos,
que hei-de sentir meu sangue a palpitar
Nas veias dos moluscos
E na fé que me exalta
E que em mim mesma floresceu,
Hei-de ser eu na maré-alta
Como na maré-baixa hei-de ser eu.
Senhor dos Céus
Que tão bem vês as magoas que consomem
A minha carne limitada,
Faze de mim um deus
Que ser apenas homem
Não chega para nada! 



( Resposta de Maria Helena ao poema "Dúvida"
de JG  in" Concerto à Quatro Mãos  " 1a ed.o1961 )


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