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" Fala da Menina Debruçada à Janela
Verde dos Teus Olhos "
Porque tentas saber, quando vens à tardinha
E julgas que à janela aguardo a tua volta,
Que coisas pensarei? Que faço ali sozinha?
Por que regiões de sonho a minha alma se solta?
Louco! Louco que vais andando de corrida!
Ah! que me importa a mim que passes, que me importa?
Não é por ti que espero, espero é pela Vida
Que um dia há-de passar, por força, à minha porta.
Então hei-de chamá-la a quebrarei os gelos
Que hoje fazem de mim um ente singular,
E quando ela me ouvir, soltarei meus cabelos
E os deitarei no chão para ela passar.
Então eu lhe darei minhas faces divinas
Mais frescas do que a chuva a embebedar as secas
E hei-de estender-lhe as mãos - as minhas mãos meninas
Onde há cordas ainda e uns restos de bonecas.
Toda me entregarei, numa ansiedade louca,
Ao seu poder vital sem negações nem lei
E, numa hora de sonho, há-de provar-me a boca
Que inda deve saber ao leite que mamei.
Nesse instante fugaz e com rosas aos molhos
Que Deus fará brotar onde à Deus aprouver,
Olha-me bem no fundo e verás em meus olhos
A menina a morrer e a nascer a mulher.
Repara bem em mim a no jeito sincero
Com que me libertei da cruz de mil esperas
Que te passes ou não. . . Não é por ti que espero
Com meus olhos gritando a cor das primaveras.
A ela sim, a ela é que eu espero ainda
E espero-a, vê-la tu!, desde que amanheci.
Por ela - que há-de vir! - eu sou criança e linda,
Por ela é que me rio ao rir-me para ti.
Se à minha rua vens a numa exaltação
Vês que afasto, a tremer, a ponta da cortina,
Os meus olhos de mel tem outra direção
Se encontras meu olhar quando dobras a esquina.
Que pretendes de mim nesta hora suprema
Quando um mundo de sonho avassala o meu ser?
Queres versos? Pois bem: aqui tens um poema
Que para ela fiz, mas que te deixo ler.
Agora podes ir, que já te elucidei
Porque sou toda Sol, porque me cora a face,
Segue o teu fado, pois, que eu cá me ficarei
A espreitar à janela até que a Vida passe.
( Resposta de Maria Helena ao Poema de JG
Araujo Jorge
" Menina dos Olhos Verdes" in Concerto à 4 Mãos - 1961 )
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