
![]()
*****************************************
" Não A Querias
Diferente " (M.H.)
Por que aceitas o Sol, sem resistência,
E não rasgas o peito em frases vãs,
Se vês o Sol poluído da insistência
De todas as manhãs?
Por que esperas da boca já falada
A pureza da luz e das safiras,
Se a tua própria boca está manchada
De todas as mentiras?
Por que pedes estradas verdadeiras,
Isentas de basalto e de espinhos,
Se tens nos pés o sulco das poeiras
De todo os caminhos?
Por que exiges uns olhos sem pecado
Numa paisagem transbordante de ânsias,
Se até o vento tem o olhar culpado
De todas as distâncias?
Por que olhas as mãos "dela" com desprezo
- Porque os seus dedos já não são intactos -
Se as tuas mãos se vergam sob o peso
De todos os contatos?
Por que não negas o esplendor da Lua
Na beleza das noites singulares,
Se traz desflorações na carne nua,
De todos os luares?
Por que tentas impor limitação
Aos passos que seguiram sem clausuras,
Se as próprias asas medem a extensão
De todas as alturas?
Por que pensas tornar-lhe o rosto langue
E as artérias alheias a matizes,
Se nas veias da terra grita o sangue
De todas as raízes?
Não levantes o horror de uma procela
Que fatalmente mataria os dois,
Faz-te a ti mesmo e ao mundo dignos "dela"
E querer-lhe depois.
(Resposta de Maria Helena à poesia "Eu Te Queria Tão
Diferente" de J. G. in Concerto a 4 Mãos - 1a ed.1961)
(Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
" Concerto à Quatro Mãos " 1a edição1961 )
*****************************************