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" Lirismo... Inconseguido! "
(M.H.)
Eu quis ser o poeta alheio à mágoa
De primeiro ser só, triste depois,
Mas foi a solidão que não deu água
À minha sede lírica de dois ...
Eu quis ser o poeta do Sol alto.
Do dia claro, das manhãs sem fim,
Mas foi a noite que tomou de assalto
O Céu oculto que eu trazia em mim.
Eu quis ser o poeta que chamou
A Vida numa voz vibrante e erguida,
Mas foi a Morte imensa que escutou
O imenso apelo que eu fazia à Vida.
Sonhei correr o mundo "lés-a-lés"
Desde o primeiro alvor da minha infância.
Mas foi o chão que me acorrenta os pés
Que acordou o meu sonho de distância.
Eu quis ser o poeta do mar largo
Buscando a cor de inéditas paisagens,
Mas foi o rio, num travor amargo,
Que me obrigou à sujeição das margens.
Eu quis ser o poeta dos Espaços
Voando numa Amplidão que fosse minha,
Mas foi a realidade dos meus passos
Que me indicou as asas que não tinha.
Então, num grito que ninguém concebe,
Dei-me toda ao luar, num abandono,
Mas, foi a insônia que alagou de febre
Os meus olhos abertos e sem sono.
Quis as Estrelas e com gestos sãos
Ergui as mãos ao Céu, para colhê-las,
Mas foi o pó, presente em minhas mãos,
Que encheu de si a ausência das Estrelas.
Mal haja o meu destino singular
Que me privou de versos e de bem,
Que a minha dor não me deixou cantar
Nem rimou com a dor de mais ninguém.
Mal haja esta alma sôfrega de ideais,
Tão única, tão vil, tão incompleta,
Que não podendo ser igual às mais,
Nem conseguiu, ao menos, ser poeta!
(Resposta de Maria Helena ao poema de
J. G. "Lirismo..." in Concerto a 4 Mãos - 1961)
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