*****************************************


 "
Sobre a Tristeza " (M.H.)


Irmão que vives para além do mar
Afastado  de mim  por tantos  nós;
Que  tens  na  alma a alma do luar
E  nas  veias o sangue  dos   cipós;

Irmão que segues de olhos deslumbrados
E não vês rosas sem poder colhê-las
E trazes nos cabelos desmanchados
A carícia noturna das Estrelas;
Tu, que tens os sentidos bem despertos
E uma chama a pulsar no coração
E enches todo o silêncio dos desertos
Com o grito escaldante do sertão;
Tu, que te levas por caminhos sábios
E que não andas pelo mundo à toa
E mataste a secura de teus lábios
Beijando os lábios frescos da garoa;

Tu, que não te naufragas em cansaços
Nem receias surpresas na viagem
E tens no ritmo aéreo de teus passos
A musical cadência da folhagem;
Tu, que sonhas à margem dos escombros
E dos loucos vazios de ideal
E que apenas suportas nos teus ombros
o peso da loucura tropical,

Irmão: se mesmo quando a dor te assiste
Abres na boca o riso de uma aurora,
Já que eu só sei chorar quando estou triste,
Vem-me ensinar a rir quando se chora.


(Resposta de Maria Helena ao poema de J. G.  
" Sobre a Alegria " in  Concerto  a  4  Mãos - 1961)



*****************************************

Home