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" O
Sonho do Menino Pobre "
Ele cerrou seus olhos lentamente
e dormiu e sonhou...
(Entrava pelo quarto a luz do luar)
Sonhou com um batalhão de soldadinhos
marchando alegremente
como outros muitos que já viu marchar...
"Tará! Tará! Tará!
Tará! Tará! Tará!
Tará! Tará! Tará!
Tará! Tará! Tará!"
E ao toque dos clarins e das cornetas
e às pontas para o céu, das baionetas,
como dedos sinistros de terror,
entre os soldados todos em fileiras
escutava o tambor:
"Bum! Bum! Deguebum! Bururum!
Bum! Bum! Deguebum! Bururum!"
E o ruído surdo das "caixas"
em notas muito mais baixas:
"Tam-tararam! Tam! Tam!
Tam-tararam! Tam! Tam!"
E os soldadinhos todos avançando
marchando... marchando...
E vem marcando a marcha passo a passo
num mesmo compasso.
Vem perto já, já estão dele bem perto
com seus galões
e seus botões dourados,
e ao redor, nas calças, pelos lados
erguem-se vivas e se atiram flores...
Vem na frente as cornetas,
rebrilham no ar as mudas baionetas,
e mais forte, ao ritmo dos ruídos
os baticuns seguidos
dos tambores...
Tará! Tará! Tará!
Bum! Bum! Deguebum! Bururum!
Tam-tararam! Tam! Tam!
Um! Dois! Um! Dois!
Vão passando, passando... e ele louco pra ver
correu pro meio da rua...
Viu então
diante dele, um soldado gigante
que erguendo para o céu uma espada brilhante
atirou-o no chão...
.............................................
Acordou assustado... Abriu os olhos...
E ficou refletindo...
Lá fora o céu azul parecia tão lindo!
Ninguém no quarto pobre e sem mobília...
Ao seu redor, noutros colchões no chão
seus irmãos, sua família...
Tudo fora ilusão!
Estava bem sozinho!
Aqueles soldadinhos todos pertenciam
ao filho do vizinho...
( Poema de J.G . de Araujo
Jorge
in " Meu Céu Interior " - 1934 )
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