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"A Última Carta "
Respondo à tua carta: (a nossa última carta)
- bem sei que deste amor tu já te sentes farta
e queres acabar. Vou fazer-te o desejo.
Tu tens toda a razão, e afinal, hoje, vejo
o erro que eu e tu na vida cometemos...
Também acho melhor que a história terminemos
já que enfim encontraste um novo amor, sincero,
diferente do meu. Faço votos e espero
que sejas bem feliz... Farei por esquecer
este lindo romance, e por não mais rever
as noites que nos dois, sob a sombra dos ramos
daquela árvore velha, a imaginar passamos
um futuro irreal... Tentarei apagar
da lembrança - o jardim, a casa, o nosso lar,
aquele doce lar do teu sonho de criança
e que era para mim a mais linda esperança...
Tudo isso - afirmas tu - foi apenas um sonho,
uma época feliz, um tempo mais risonho
que afinal já passou... E escreves, terminando,
- que procure da mente meu sonho ir apagando
porque não voltarás jamais, e sendo assim
é melhor esquecer... é melhor para mim...
Que queres que eu responda? - Hei de tudo fazer
para arrancar do âmago do ser
este amor que nasceu sem que eu sequer notasse
fazendo-me sofrer... Se este amor te contasse,
as dores que em meu peito o coração abriga
num sofrimento atroz; verias, minha amiga
que é fácil esquecer, quando apenas julgamos
ter amado; porém, quando em verdade amamos,
só depois de amargar infindáveis tormentos,
conseguimos enfim, alguns poucos momentos
de olvido e solidão. Meu caso é diferente
do teu, pois que te amei, e amei sinceramente
acreditando em ti. Pensei que era feliz
muita vez à razão acreditar não quis,
e hoje sofro pagando a minha ingenuidade.
Tu, não. Pensaste amar; julgaste ser verdade
o que agora não é mais que um sonho desfeito...
Ainda há, como bem vês, acesa no meu peito
a brasa deste amor, e em minha alma ainda existe
um vago relembrar, que me faz triste
sentindo o que passou. Contigo, nem sequer
há de haver, a menor lembrança - és bem mulher
no teu esquecimento... Esqueceste depressa...
- Confessa!... Tu jamais tiveste amor, confessa!
Só assim compreenderei a tua decisão
e o novo amor que achaste... Eu sofro, e com razão,
quando penso que um outro há de beijar-te a boca,
esta flor rubra e fresca onde a minha lama louca,
se fundiu à tua alma e fremiu de desejo.
A tudo esquecerei, talvez - mas este beijo
não tentes me pedir -, de há muito está gravado
como o ponto final da história do passado...
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E é só. Nada mais tenho a te dizer. Na vida,
não te quero encontrar jamais arrependida
porque seria em vão... Meu amor é dos tais
que morto como foi, não voltará jamais...
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Adeus... (Podes rasgar todos os versos meus...)
perdoa-me se guardo o nosso beijo...
Adeus!...
( Poema de J.G . de Araujo
Jorge
in " Meu Céu Interior " - 1934 )
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