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" Vergonha "


Num mundo em que há migalhas e desperdícios
pratos cheios de restos enfastiados
e bocas a salivar sem ter pão;

e em que há crianças tristes, maltrapilhas,
que não terão nem livros nem recreios
nem mesmo infância no seu coração,

num mundo onde os enfermos são tratados
com a caridade irônica dos homens
proprietários dos próprios hospitais;

onde alguns já nasceram infelizes
e hão de viver sem segurança e paz
sem meios de lutar, abandonados;
e outros, trazem do berço as regalias
que hão de inutilizar, despreocupados;

num mundo onde há mãos cheias, trasbordantes,
e há mendigando, pobres mãos vazias;
onde há mãos duras, ásperas , cansadas,
e suaves mãos, inúteis e macias;

onde uns tem casa grande, com jardins,
e outros, quartos estreitos, sem paisagem;

num mundo onde os artistas, prisioneiros,
fazem "roda" nos mesmos  quarteirões
sonhando sempre uma impossível viagem;
e há homens displicentes nos navios
carregando kodaks distraídas
que tem mais alma que seus olhos frios;
num mundo, onde os que podem, não tem filhos,
e os que tem filhos, quase sempre lutam
porque não podem construir um lar;

num mundo onde o mais leve olhar humano
vê-se que não há nada em seu lugar,
e onde no entanto fala-se em Direito,
em Justiça, em Razão, em Liberdade;

num mundo, onde os que plantam, pouco colhem,
e os que colhem, não sabem, na verdade,
de onde vem as colheitas que consomem;

num mundo, onde uns jejuam muitos dias
e outros, por vício, muitas vezes comem...

- sinto a angústia fatal de ter nascido
e a suprema vergonha de ser homem!


( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " - 1a edição1945 )

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