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Variações Sobre o Mangue "
                                                  (1941)
   
 
Mangue, navio encalhado
de altos mastros para o céu,
- os mastros, são as palmeiras
mastros de tantas bandeiras
que até parece que o mangue
quarda em seu bojo os destroços
de uma torre de Babel...

Desaguadouro da sífilis,
oh! purgatório da raça,
porto cristão da desgraça,
onde se confraternizam
francesas, russas, polacas,
e mulatas nacionais...
Niveladouro dos homens,
vazante de mil desejos   
do oceano das multidões,
Democracia do sexo
no subsolo da vida,
sepulcro anônimo e triste
de infinitas gerações,
todos ali são iguais,
marinheiros ou sargentos,
choferes ou condutores,   
mulatos, pretos ou brancos,
comerciantes ou caixeiros,
estudantes ou doutores,
todos ali são iguais...
Todos se amam, ninguém ama,
é mal que ninguém reclama
Mangue - és apenas a cama,
o pasto ralo, sem grama,
dos instintos nacionais!

Mangue, navio encalhado
já sem destino nem porto,
encalhado num "mar-morto"
com penachos de palmeiras
que são círios ou bandeiras
em festas ou funerais...
Desaguadouro da sífilis
cano de esgoto da raça,
vergonha da juventude
por ti quanta gente passa
e diz que não lembra mais,
- pedaço sujo de praia
no fundo de uma enseada
onde as ondas levam restos
que os próprios peixes não comem,
(e, entretanto, são restos
que alimentam muito homem... )

De quanta gente se sabe
que a sua vida constrói
à beira da praia suja
onde as ondas levam restos
que o próprio mas não destrói,
restos jogados às vagas
por mil navios diversos
de mil países talvez:
dois seios murchos, polacos,
dois olhos russos, doentes,
e adiante, um ventre francês!

De quanta gente se diz
que vive à beira da praia
onde os restos vão boiar,
onde restos jogados ao mar
por um navio feliz
ou, quem sabe se infeliz?
que seguiu a viajar
pro seu distante país...
Mangue, enseada de restos
de restos que vêm da praia,
de restos que vêm do mar,
país de restos perdidos
que entre si se entredevoram
para outros restos deixar...

Mangue, Utopia ao avesso   
humanismo na desgraça
reverso da obra sonhada
com destroços erigida
no cristianismo da dor.
Mangue, um símbolo que passa,
refúgio de órfãos do sexo
dos que sofrem sem carinho
num mundo injusto e perverso,
dos que vivem sem amor...

Trecho da Bíblia arrancado
sem permissão do Senhor...
Quando o teu lodo secar
Mangue velho, velho Mangue,
do teu chão há de se abrir
a flor mais bela e mais pura
que um dia o céu vai cobrir...
Flor livre do amor, sem peias,
de alvas pétalas tão brancas
como o clarão das areias
cheias de sol e de luz,
flor livre do amor humano
sem correntes, sem tirano,
sem sacrifício, sem cruz...

E só então redimida
a tua vida de agora
a gente te esquecerá
na vergonha do que foste
num mundo como hoje está!
.................................................

País de restos perdidos
que ficam boiando n´água
com as marés que vão e vem
num eterno leva-e-traz,
- rude país, deletério,
presídio de imenso império,
"selva selvagem" dos homens,
- menos homens, que animais...

Velho Mangue, cemitério
dos instintos nacionais.


( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )


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