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" Sim, Nós Lutaremos "
                                          (Friburgo, maio, 1944)

   
  Sim, nós lutaremos, homens de todas as terras, 
e o perigo e o medo
nos confraternizarão,
e a morte selará com o nosso sangue sobre a terra,
o tratado inviolável
de uma fraternidade indestrutível, acima de todas as forças
e que prosseguirá quem sabe? - para onde?

Sim, nós lutaremos, homens da terra, do ar e do mar,
e aprenderemos a manejar as mesmas armas,
já que não aprendemos a ler nos mesmos livros;
e descobriremos em face do perigo que teria sido tão fácil
vencer a vida
se frente a ela estivéssemos unidos como frente à morte...

E teria sido tão fácil conquistar a Paz
se para ela nos dispuséssemos com o mesmo entusiasmo,
o mesmo ardor, a mesma coragem
com que nos dispomos a enfrentar a guerra...

E teríamos sido tão felizes, se déssemos em paz a todos os homens
os seus direitos, a sua casa, a sua liberdade, a sua posição,
como lhes entregamos uma arma, e lhes damos um lugar na trincheira,
e lhes colocamos na manga e nos ombros, os galões!


( Ninguém protestará pelos galões e pelas medalhas
porque elas terão sido conquistadas nos campos de trabalho
como o foram nos campos de batalha.
Que haverá sempre medalhas para os mais bravos,
e haverá sempre galões
para os mais aptos
em todos os campos de batalha, sejam eles do mundo em paz
e em trabalho
sejam eles do mundo em guerra...)

II
Sim, nós lutaremos, homens de todas as terras,
gregos que reviveram Atenas e Esparta
porque Roma lhes mandou seus sinos em canhões
numa traiçoeira sexta-feira da paixão;
escoceses de saiotes heróicos e gaita de fole,
que iniciaram a marcha no deserto
e marcaram El-Alamein na História;
negros do Congo e da Nigéria levando ainda no coração
a força selvagem das florestas sagradas
onde o leão ombreia com o homem;
negros de toda a África, negros que não olham o passado,
e não lêem o passado,
e se perfilam orgulhosos nas mesmas fardas estrangeiras
ao lado de legiões de puros anglo-saxões;
noruegueses em cujas armas haverá arestas mais agudas
que a dos frios fiordes
novos "vikings" procurando a Inglaterra nos frios horizontes árticos,
a Inglaterra, que será o porto de onde partirão
para reconquistar a pátria;
australianos, de largos chapéus de aba virada, ágeis e corajosos
fortes e rápidos no ataque como cangurus;
chineses pequeninos, cuja força ignorada estava dispersa,
chineses que viram se repetir na história, nas proporções
de um povo em face de outro
a lenda de Abel e Caim;
e hindus da cor do cobre, esquecidos das águas sagradas do Ganges
das cidades que morrem inteiras de fome pelas ruas,
hindus que não ouviram Gandhi;
e franceses que soçobraram no naufrágio irreparável
e ainda têm na alma acordes da Marselhesa;
poloneses que nunca chegariam a vingar todos os seus mortos
e a esgotar a sua vingança;
e holandeses, e iugoslavos, e belgas, e tchecos;
e americanos, de todas as Américas, americanos do Mississippi
e do Amazonas, dos pampas e dos Andes,
das aldeias rústicas e longínquas,
e das cidades ciclópicas e tentaculares;

sim, nós lutaremos,
porque nós temos filhos,
e porque queremos que os nossos filhos
nasçam, cresçam, vivam e morram, livres como nós,
e porque não teríamos nascido e vivido,
e não poderíamos morrer
se não tivéssemos herdado de nossos pais,
essas terras, essas tradições,
esses rios, essas montanhas,
esse sentimento invencível de fraternidade,
e essa coragem de lutar e de morrer
pela nossa liberdade!


( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )


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