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Ruas Tortas do Morro... "

   
  Ruas tortas do morro
que vão subindo encosta de gatinha
segurando-se nas pedras
como crianças pequenas que não sabem andar...

Ruas tortas. ignorantes, analfabetas
que andam descalças
com fundilhos de muros remendados
e buracos no chão,
onde o Progresso não sobe
por que o Progresso ou anda de automóvel
ou passa de avião!

Ruas que não conhecem os sapatos de verniz
do asfalto luzidio
ruas que não conhecem sapatos
mesmo sem ser de verniz,
nem se cobrem com  a sombra   do "ficus"
podados, como as mulheres
segundo os figurinos de Paris...

Ruas que sobem sempre, sobem sem parar
e não descansam nunca,
numa praça bonita ou num banco vazio
de um pequeno jardim,
- que andam sempre vestidas  cor de verde
com remendos de mato e capim...

Ruas que vão subindo num esforço imenso
pelas ladeiras,
rodando sobre si mesmas
marcando passo nas esquinas para descansar,
- que os dias de chuva brincam de cachoeira
quando as águas traquinas trazem latas velhas
a rolar...

Ruas onde se soltam papagaios
roda-se pião
joga-se chapinha e bola de gude
e ainda se mata gente
a faca e a punhal
onde não há quase escolas
mas nas poucas que há
a molecada ainda canta antes das aulas
o hino nacional...
Como me lembro desse velhinho tempo

Rua de boemia e malandragem
onde se escuta a noite inteira o samba
no ronco da cuíca
e no sacudir do pandeiro,
ruas onde lateja o nosso sangue ardente
e onde parece bater
o coração brasileiro!

Ruas tortas do morro
como a vida de seus moradores
ou como a nossa própria vida,
- que às vezes vão subindo... vão subindo...
olhando para cima, para o além,
e vão parar num beco sem saída...

Ruas que vão subindo... vão subindo
como se fugissem da terra na ânsia de conseguir

tocar o céu que está mais perto
pra ver se é mesmo de anil...
- ruas que expressam a alma e a pobreza
as lutas, as misérias, as baixezas,
e a beleza nativa e desgraçada
de um outro Brasil.

Ruas que por mais baixo que estejam
numa estranha ironia
num paradoxo vivo da realidade,
olham sempre de cima as grandezas de baixo
e erguem a fronte triste dos casebres pobres
sobre a alegria encaixotada e falsa
dos arranha-céus da cidade!

Ruas morenas de sol
(morenas na terra e na cor das mulheres)
que só querem subir
que só sabem cantar
que não podem fugir
que não podem chorar...

Ruas tortas do morro
tortinhas afinal,
quem sabe se algum dia não descerão cantando
com a cuíca roncando...
- mesmo sem ser carnaval?.


( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )


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