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" Palavras ao Último Pacifista "
(A Raul Brandão - 1941)
Nada de lamentos inúteis... nada de lamúrias
inglórias...
Em verdade
para os olhos cegos de dor da humanidade
as tuas lágrimas serão irrisórias...
Os teus gritos serão grotescos
e serão ridículos os teus ais,
perdidos na orquestração de motivos dantescos
de gemidos universais!
Nada de falsas esperanças, nem gestos tolos de paz!
Este céu cor de fogo, este calor na terra,
esse choro imperceptível
essa angústia sem voz,
são os sintomas fantásticos de uma luta
inconcebível
que chegam até nós!
Este céu carregado... estas sombras pelo ar . . .
Este tremor na terra . . . estes trovões no mar . . .
- são os iniludíveis sinais
de que entre chamas e escombros o mundo inteiro arde!
Nada de sonhos vãos de palavras inúteis
ou de ilusões fatais,
já tudo o que disseres será tarde!
Será tarde demais!
Tôda idéia de paz hoje será funesta
quando o mundo é uma adusta e esgalhada floresta
num incêndio descomunal!
Infelizmente, a realidade é esta
afinal!
Lutar é ser coerente a uma velha conduta
e se foste sincero em teus velhos ideais,
entra na luta que também se luta
pela paz!
Luta pela cultura e pela humanidade
ameaçadas e combalidas;
pelo teu pensamento, e pela liberdade
de todas as vidas;
luta por teus irmãos humildes, explorados,
pelos povos pequenos violentados,
e pelos grandes traídos;
pelos humildes, pelos perseguidos,
pelo direito, pela justiça, pela razão;
luta contra a violência, a rapina, a conquista
(abutres no ar sobre um chão coberto de defuntos!)
- luta por tudo isto e lutaremos, juntos
oh! meu irmão pacifista!
oh! meu irmão!
Se a loucura domina e se a força se expande
desperta a tua força, e ela será tão grande
que sairás vencedor!
Ou levarás contigo os derradeiros restos
de liberdade!
Ou morrerão contigo os derradeiros gestos
de amor!
Vamos! Nada de lamentos, de lamúrias e penas,
nada de olhar para trás!
A paz que sonhamos juntos, era grande, e era bela,
mas era um sonho apenas,
nada mais!
Deixa pois que a loucura te empolgue e te anime
oh! suprema ironia!
oh! irônica verdade!
- é preciso afinal acumpliciar-se ao crime
e saber perpetrá-lo,
pela liberdade!
Lutar então é dos justos! Lutar assim é dos bravos!
- dos verdadeiros heróis!
Só com a nossa vitória os que hoje são escravos
amanha. serão homens livres como nós!
( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )
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