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Palavras aos Mestres "

 
( A Armanda Álvaro Alberto e Edgard
Sussekind de Mendonça - 1944 )  


Nunca se há de avaliar precisamente o vosso mérito
trabalhadores pacientes que utilizais a matéria do espírito
na construção de povos e culturas...

Ficais perdidos na sombra das memórias invadidas pela vida,
e assistis de longe, de olhos surpresos, a vitória de vós mesmos
noutros seres cheios de novas forças e de novo tempo
dando pomos de luz,
plantados na terra ingrata do esquecimento, que desconhece
a mão que lançou sementes
na terra que produz...

Fostes vós que acendestes o fogo sagrado e alimentastes
a chama indecisa
transformando-a na labareda vivificadora que ao queimar não destrói,
- que é luz sem ser fogo,
e leva a ciência ao futuro e avança o homem contra o desconhecido
ensinando-lhe novos lances nesse infindável jogo...

Estais sempre presentes, nas escolas, nas bibliotecas,
nos laboratórios, nos campos,
e em todos os destinos e em todas as atividades
onde germine a vida e onde haja a criação;
muitas vezes, com a luz, ressuscitais um morto;
sois vós que descobris os rumos, que dais mapas às vidas,
bússola aos que não sabem o Norte e se perdem nas ondas
sem ver o porto...

Estais nos alicerces, porque estais no princípio,
e sois mão que arrima e conduz;
sois o primeiro apoio, a primeira experiência, a primeira luz,
a primeira resposta afirmativa à primeira interrogação;
a vitória sobre    sobre a dúvida inicial,    o primeiro passo,
o inesquecível deslumbramento
da primeira lição!

estais nas raízes, nos caules, nas folhas e nos frutos
principalmente nas raízes e nos frutos
do primeiro momento ao último momento,
invisível como a seiva
alimentando a alma e o pensamento!

Sois os pais desconhecidos de milhares, de milhões de criaturas
que nasceram da vossa lucidez, da vossa compreensão, da vossa paciência;
que andaram com o vosso ensinamento, descobriram com a vossa luz,
amaram com o vosso coração, viveram com a vossa existência;
de milhares, de milhões de criaturas que são vossos filhos,
mesmo sem vosso sangue nas veias
porque nunca fugirão de vós por mais que se distanciem,
tal como as águas trazem sempre imperceptível, na caudal que cresceu
- e se avolumou, no longo percurso, na largura da foz,
ou despenca em vertigem,
a água pura da nascente, a água pura da origem...

Vossa família é infinita! A cada geração se amplia, se multiplica,
como os círculos na superfície de um lago onde uma pedra caiu,
mas se esquece de vós, e não sabe muitas vezes
que fostes a pedra indispensável
que provocou os movimentos que se ampliaram indefinidamente...

E não sabe que veio de vós, como a onda não sabe que veio da pedra que feriu
a superfície imóvel do lago...
E não sabe que veio de vós, como a foz não sabe de onde vêm as águas turvas
que eram tão claras na nascente   

Nunca se avaliará, oh! mestres, o vosso extraordinário valor!

Mestres das cidades, dos campos, das oficinas, das aldeias,
mestres das Faculdades ou das Escolas Rurais;
mestres que subis às cátedras diante dos grandes anfiteatros,
ou nos bancos toscos, vos sentais;
que ides à terra, e a revolveis com as mãos,
que ides à máquina, e tendes óleo nas faces;
mestres que vos encontrais diante de meninos, rapazes e homens,
que têm livros encadernados e sapatos de verniz;
mestres que olhais com desespero crianças, rapazes e homens,
que não têm livros nem sapatos
a exigirem de vós,
muito mais que a palavra e a paciência!

Mestres que ides à Universidade ou à Escola Técnica,
com o conforto do progresso
ou que varais o sertão no lombo das montarias;
que subis os rios nas ubás indígenas,
ou que seguis a pé levantando nas estradas a poeira da abnegação;
mestres que lutais contra a ignorância, a estupidez, o analfabetismo,
ou contra a verminose, o impaludismo e a sífilis;

mestres que ensinais nos livros e nos cadernos, quando há livros e cadernos
ou que ensinais simplesmente na vida e no mundo!

Nunca se saberá exatamente o vosso extraordinário valor,
criadores anônimos de homens e caracteres, artífices ignorados
de povos e culturas,
apóstolos sem religião, heróis sem medalhas, sem culto nem posteridade,
heróis que não posais para os monumentos da glória,
porque estais mais além da glória
com a vossa palavra mansa ou eloqüente, com o vosso olhar agudo ou cansado;
que não chegais a mártires, nem vos atirais em gestos épicos
com teatralidades de epopéias,
mas que venceis batalhas com as armas mais belas e nobres
e semeais idéias!

E sois no entanto, épicos e mártires, santos, heróis, soldados e apóstolos!
Não tendes o bronze das estátuas e das consagrações
porque a memória dos homens é de areia, e é de barro a sua alma,
e nelas bem pouco fica e se eterniza
e quase tudo se some,
- e porque trabalhais com o pensamento muito alto
e não deixais no pedestal da obra o vosso nome!

Na verdade, a obra que trabalhais, o barro informe e rude, que um dia
às vossas mãos por acaso veio,
- e que modelareis num Homem, - corpo e alma -
já trouxe e há de levar pelos tempos em fora, na luta renovada,
sempre um nome alheio!


( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )


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