
![]()
*****************************************
" Palavras ao Poeta do Meu Século "
(A
Eudes Barros - 1940)
No teu verso
existirá a nevrose de todos os homens esgotados
ou excitados
pelos prazeres,
e a nevrose de todos os seres
exaustos
pelo trabalho,
pela ambição!
E a vertigem do moto-contínuo das cousas
na terra
e nos espaços!
E a volúpia doentia dos seres livres ou recalcados
nos segundos de loucura
e de sublimação . . .
E a revolta de todos os que já sentiram fome
e dos que ainda à sentirão!
E a amargura dos que não encontram nas noites frias,
às horas mortas,
senão o vão das portas
e as escadarias...
E a tragédia de mil raízes profundas e sombrias
que bruxeoleia nos olhos baços
das proxenetas...
(como o sol, quando põe estilhaços
de luz)
que parecem laivos de pus
- na água podre das poças d'água nas sarjetas!...
- na água podre das poças d'água nos pauis!
E a ousadia e o destemor da estirpe incurável
dos sonhadores e terroristas,
dos agitadores e incendiários,
dos teóricos e utopistas,
e dos revolucionários...
E o estoicismo e a abnegação dos santos, dos apóstolos
e dos missionários!
A fé cristã dos mártires, a força dos condutores
de povos
e o entusiasmo, e a coragem, e a eloqüência dos novos!
E a angústia dos que já tiveram um lar
e já tiveram trabalho,
os que vivem na vida andando a esmo
numa ansiosa vigília
- os que não têm mais lar
mas ainda têm família!...
No teu verso existirá
o desespero dos anônimos e desgraçados,
dos forçados à impotência
e em verdade incapazes,
dos que nasceram escultores e perderam as mãos,
dos que trouxeram o tormento surdo
do gênio de Beethoven,
os que, adorando a música e os seus sons, não ouvem...
E a agonia cruciante dos que têm olhos para ver,
coração para sentir,
mãos para ofertar
- e, suprema e fatal de todas as ironias!
não podem chorar
nem socorrer
e só podem ofertar as tristes mãos vazias...
E a desgraça dos que chegaram ao mínimo de humanidade
pensando na dor alheia,
para sublimá-la na explosão inútil de uma obra
frágil como a areia...
No teu verso existirá a incoerência,
o paradoxo, o desconexo,
a miséria, a opulência,
e o flagrante de todas as desigualdades
e injustiças
de um século complexo...
E por isso o teu verso será o instantâneo vivo
da própria evolução,
será o monólogo, doloroso, hamletiano,
de um tempo desumano!
( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )
*****************************************