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" Os Dez Mandamentos "
(1944)
"O abismo entre o domingo com os seus sermões
realçando a fraternidade,
a cooperação e o desejo pelo bem do próximo,
e a segunda-feira, com as suas rivalidades e competições,
com as lutas encobertas. com o seu desejo de lucro,
sua vontade de construir a própria segurança,
esse abismo se torna tão profundo que muitos
dos melhores homens e mulheres de hoje,
permanecem e completamente afastados das Igrejas.
Não querem ser hipócritas.
Especialmente os jovens, com a sua paixão pela sinceridade,
acham-se em franca revolta."
Rev. Hewlett Johnson - Deão de Canterbury.
"O Poder Soviético" - Prefácio.
I
Sim, amarás a Deus acima de todas as coisas, quando Deus
estiver em ti
como a chuva na terra, como as fontes na pedra, como os rios
na floresta,
como a abelha nas flores, como as asas no espaço,
na paz que te rodeia, na justiça que te protege, no sorriso de
teus filhos,
no pão branco que te espera sobre a toalha branca, nas cortinas
coloridas de tuas janelas,
na convicção do teu trabalho, na segurança do teu futuro;
sim, amarás a Deus acima de todas as coisas, quando te sobrar
tempo para este amor,
e quando em verdade puderes elevar até Ele o teu pensamento
sem profanares a tua crença,
sem ódio, sem revoltas, sem fome,
sem nenhuma negação à sua Presença!
II
Sim, não usarás seu santo nome em vão, quando não precisares
batizar armas que vão matar,
e não silenciares as torres altas para que rujam os canhões,
e quando a tua linguagem vier d'Ele e somente d'Ele, sem
nenhuma interferência
e não se fragmentar em estilhaços sonoros nas línguas mais
estranhas
com os mais estranhos sentidos,
condenando e absolvendo o mesmo crime monstruoso;
sim, não usarás seu santo nome em vão, quando já não o
tiveres ao alcance da mão
instrumento de teus desejos e de teus interesses;
quando em verdade ele for para a tua prédica
mais que um santo nome, - uma verdade de tua consciência,
pura como a luz e ardente como o fogo!
III
Sim, honrarás pai e mãe, quando tua terra nascer em teu lar,
e quando os chefes não ordenarem nunca além do teu trabalho,
e quando teu sangue, for apenas sangue, mas, antes e acima
de tudo, teu sangue,
e nenhum interesse te fizer bom nem ruim
nem nunca precisares trair a tua origem
ou imitar Caim!
Honrarás pai e mãe porque então entenderás que este
é o preito da terra
às famílias que vivem saudáveis e felizes,
da terra que se fez árvore, ramo e fruto,
e onde se entranham fundas, as raízes!
IV
Sim, não furtarás, quando não vires a abastança a afrontar
a necessidade
e quando não te atropelarem mãos vazias,
e os homens como os cães, não rondarem as casas fartas
que transbordam pelo fundo os restos e as demasias;
e quando o estômago não doer diante das vitrinas das
confeitarias
iluminadas e indiferentes;
quando o trabalho não for privilégio, quando o trabalho
não for suicídio,
quando o trabalho não tiver o seu preço nas mãos dos que
não necessitam...
Sim, não furtarás, - se o desperdício não te despertar a
ganância e a inveja,
nem tiveres de menos, para que precises lutar com qualquer arma,
quando sentires que teus direitos são reconhecidos
e que vives entre homens que compartilham
dos frutos do trabalho, com justiça.
Não furtarás, quando a fome não for uma injustiça,
e a doença um espantalho,
quando o roubo for inútil como um copo de água
depois que mataste a sede!
V
Sim, não matarás, quando compreenderes que tens matado
inutilmente,
e que nada, nem mesmo as palavras mais nobres, justificam
teu crime,
porque as palavras serão sempre palavras
e será sempre crime, o teu crime;
sim, não matarás, quando compreenderes que homens de cores
diferentes
choram e amam, vivem e crescem, precisam e trabalham,
como homens,
não como cores;
e quando já não houver a palavra inimigo em teu dicionário
porque as fronteiras do mundo
serão como as paredes de tua casa!
Sim, não matarás, quando compreenderes que um único
[homem teria o Direito de matar,
- aquele que te deu o ser, -
e isso quando verificasse que não nasceste para criar mas para
destruir
e que então já não mereces a vida que te ofertou!
VI
Sim, guardarás a castidade, até que em teu corpo acorde a seiva
como as sementes do chão;
até que o sol te venha chamar, e te desperte para a vida
na alegria da luz criadora;
sim, guardarás castidade, quando a tua abstinência não for
uma imposição
mas uma necessidade,
e quando ela puder cessar livremente, ao vir sobre o cume
da montanha
o sol vencendo a noite do mistério e da idade.
Quando puderes colher o amor,
com o gesto livre e despreocupado
de quem colhe uma flor.
VII
Sim, não desejarás a mulher do próximo, porque sempre terás
a tua mulher
e em verdade, ela será tua, enquanto o teu amor a aquecer
como o sol,
e deixará de ser tua, quando a deixares na sombra
e fores aquecer terras distantes;
sim, não desejarás a mulher do próximo, porque, será em vão,
e porque nunca, a mulher que te pertença será do próximo
se ela, será livre e se tu serás livre,
e porque só haverá amor enquanto livremente os homens e
as mulheres se pertencerem;
sim, não desejarás a mulher do próximo porque então a mulher
será tua e não do próximo
e porque já não terás também a tua mulher
se o amor se acendeu e se apagou, efêmero como um meteoro
dentro da noite!
VIII
Sim, não levantarás falso testemunho, porque a verdade será
o teu caminho
e só com ela construirás;
e porque do teu testemunho dependerá sempre o bem dos
outros que será o teu bem,
e porque o mal já não será necessário;
sim, não levantarás falso testemunho, porque não mentirás
a ti mesmo para te sacrificares;
e não trairás a verdade que é o caminho de todos.
E porque nada temerás
e olharás nos olhos tua vida
sem baixar a vista.
IX
Sim, não cobiçarás as coisas alheias, porque terás as mesmas
coisas
e porque as coisas alheias ser-te-ão supérfluas
e não necessitarás delas;
e porque terás o que produzires, e desejarás o que podes
desejar,
se te identificaste no teu trabalho e reconheces tua força,
e se ninguém te impedirá do encontro com o teu ser;
e porque não pensarás mesmo nas coisas alheias, se hás de
pensar nas coisas que não serão negadas
e que serão as desejadas,
se tens direito a tudo o que puderes colher
à tua passagem.
X
Sim, guardarás os domingos de festa, quando compreenderes
que não há apenas os domingos para a tua fé,
ou para a tua festa,
e identificares as segundas-feiras pelas prédicas dos domingos;
e quando compreenderes que os domingos são como os outros dias...
Em verdade, guardarás os dias em que tua alma pedir
recolhimento
e em que teu espírito necessite de paz,
e será sempre domingo
quando levares a tua fé no teu coração e não no teu bolso
e não houver bandejas nas igrejas e preços nos altares...
* * *
Sim, cumprirás todos os mandamentos, quando os homens
[vencerem as
hipocrisias e os interesses
e se lembrarem da terra antes de falar no céu;
quando os templos forem livres e quando a tua fé for pura
como a origem
da tua fé;
quando os homens procurarem a palavra de Cristo ao invés de deturpá-la,
e a interpretarem, ao invés de a explorarem,
e a respeitarem, ao invés de a ridicularizarem...
Porque então, o céu já não estará apenas no céu
mas em todos nós,
e não precisarás de intérpretes, se Deus estará contigo
e se a voz d'Ele será a tua voz!
Sim, cumprirás os mandamentos
quando a terra for conquistada, e em verdade, forem verdades
as palavras e os sentimentos,
- e não apenas palavras
os dez mandamentos!
( Poema de JG de Araujo Jorge - extraído
do livro O Canto da Terra - 1945)
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