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" O Dia do Começo "
(
A nós mesmos, os moços, os que teremos
que
reconstruir. - Friburgo, julho, 1944 )
E um dia nos encontraremos diante da terra vazia
e nos sentiremos como Deus...
Então, nossos olhos não devem ver as ruínas do que já foi um mundo
para que as mãos tenham coragem de recomeçar,
nem devem reconhecer as cruzes que já foram vidas
para que a saudade não seja tristeza, e para que a tristeza
não seja ódio
acendendo uma brasa em cada olhar...
Nada devemos ver, - nem as cidades perdidas, nem as cruzes plantadas,
nem os restos dos navios que nunca chegaram aos portos
nem às enseadas,
nem as bandeiras que desceram nos mastros para o fundo das águas
e nunca serão arriadas;
nada devemos ver, nem as torres vazias, nem os jardins mutilados,
nem as obras de arte destruídas, nem os hospitais arrasados,
nem o mundo perdido, nem a vida estrangulada,
e isto tudo para que o novo amor possa ser puro como uma nova manhã
que não traz ao nascer, nenhuma sombra da noite de tormenta
já passada...
Nada devemos ver, nada devemos ouvir. Nem os quartos que foram desocupados
nem o piano que nunca mais acordou,
- nem os quadros que ficaram velados
nem a voz que pronunciou, - numa hora irreparável, -
e nunca mais falou...
E nossos corações não devem se lembrar que já tivemos pais
ou que já fomos pais
e já tivemos ou não um lar;
tudo deve ficar para além da memória
tudo deve esquecer o nosso coração,
- para que não seja irremediável a nossa dor e inconseqüente a nossa
glória,
na hora em que vier a paz, para a reconstrução . . .
Tudo deve esquecer nossa memória
o travo amargo da derrota, a ilusão doce da vitória,
as angústias e os desesperos, as injustiças atrozes,
os tambores e os hinos,
porque então, vamos unir numa só voz
todas as vozes,
e irmanar numa nova trajetória
todos os destinos!
Um dia
e não tardará esse dia,
quando silenciar o último gemido, e estertorar a última agonia
e voltar o silêncio, um silêncio maior e mais profundo,
silêncio de criação, de arrependimento e de beleza,
nos sentiremos como Deus se sentiu com certeza
no primeiro dia do mundo!
E' que tudo estará por fazer, e tudo se terá que fazer,
se tudo foi desfeito,
se não resta senão a terra vazia
- vazia, a nos esperar sem um teto ou uma flor. . .
E então, - sem lembrar o passado, para não tremer e vacilar,
num esforço supremo e heróico da vontade
plantaremos de novo a semente do amor!
Nesse dia, não haverá sobre a terra, arrogantes e humildes,
nem a força elegerá os homens de comando,
nem haverá homens que precisam, nem homens caridosos,
- nesse dia, em verdade, - não existirá caridade,
porque todos teremos e porque todos viveremos,
e a Vida já não será privilégio de poderosos...
Nesse dia, não deverá haver sobre a face da terra,
brasileiros, russos ou alemães,
americanos ou japoneses,
neozelandeses ou australianos,
canadenses, africanos ou ingleses,
mas apenas homens, - homens sem cores, homens sem idiomas,
homens sem religiões,
homens sem lembranças, homens sem ódio, homens sem fronteiras,
homens sem nada,
- apenas HOMENS,
para, tal como Deus, do nada, num milagre da criação,
fazerem tudo: a terra e o céu, a vida e a fé, a cultura e a civilização!
Esse dia será o dia do começo, e marcará a nossa chegada,
apesar de parecer o dia do juízo final, dia de luto e de adeus,
- e devemos nos encontrar diante dos homens nus e da terra devastada,
puros e superiores como Deus!
Em verdade, nesse dia, nós que perdemos tudo, nós que perdemos todos,
os amigos e os inimigos, os estranhos e os parentes,
e nos matamos e nos trucidamos, e nos traímos e nos iludimos.
porque em verdade nunca fomos cristãos,
- nesse dia - primeiro dia, novo dia do mundo novo -
seremos uma imensa família, seremos um único povo,
porque seremos irmãos!
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O tempo virá com o tempo
a ausência se ausentará e haverá novas presenças
e virá o esquecimento com o trabalho e a vida,
e um arco-íris será a bandeira de todos os homens
que a bonança hasteará nos céus...
Um dia
nos encontraremos, - todos os sobreviventes, - diante da terra vazia
e nos sentiremos como Deus!...
( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )
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