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"Nada... e Tudo"
(1943)
Senhor,
eu hoje perdi tudo, e todos me dizem pesarosos
que eu já não tenho nada...
Passei séculos sombrio e encerrado
em segundos de angustia e desespero,
e de repente, como um riacho que foge
das asperezas da terra
encontrei a infinita paz do oceano...
Só por isto, Senhor, meus lábios trêmulos balbuciam
uma oração:
eu que não tenho nada, tenho ainda meus olhos,
tenho ainda meus pés, minhas mãos e meus sonhos,
meu cérebro
e meu coração...
Pertencem-me os caminhos sem donos, as montanhas
[inacessíveis
as terras inatingidas
as auroras e os poentes,
e o canto dos pássaros, e o riso das crianças,
e a alegria das sementes...
São meus, todos os mares, com todas as ondas,
e cada paisagem desperdiçada,
por onde passam tantos olhos indiferentes e cegos
que não vêem nada!
E os vultos dos navios com seu penachos e mastros
e as praças com repuxos inquietas ou sossegadas,
e a orquestração inaudível dos astros
no silêncio das noites consteladas!
É minha vida, a minha vida, e o direito de sonhar, e a liberdade
de amar e de viver
como um sátiro, como um santo ou um visionário...
Senhor, tenho medo da inveja dos homens,
porque me deixas-te, da noite para o dia,
milionário!
( Poema de JG de Araujo Jorge - extraído
do livro "O Canto da Terra" - 1945)
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