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" Momenlo Otimista "
( A Gastom Figueira - 1939 )
Felizes os que como nós, nunca estarão sozinhos
e nunca serão pobres de beleza e romance
porque terão seus pensamentos,
e as mulheres, e os caminhos,
e a riqueza de todas as belezas ignoradas
ao seu alcance...
Felizes porque saberão surpreender o segredo das coisas
aparentemente apáticas e frias,
e tirarão música dos movimentos, e darão forma à matéria esperdiçada,
e cores desconhecidas às tristezas e às alegrias...
E poderão se deslumbrar
diante do mundo, diante do céu, diante do mar...
Felizes
porque perscrutarão os mistérios da vida
devassarão o infinito ou descerão a profundezas incalculáveis...
- e terão olhos para as paisagens humanas,
invisíveis,
interiores e indevassáveis. . .
Felizes
porque se comoverão com as folhas verdes que nascem,
e se deixarão distraídos a olhar a chuva que cai,
e encontrarão delícias no simples contato acetinado das flores
entre os dedos...
Felizes
porque atingiram a verdade humilde dos sentimentos
e descobriram segredos . . .
Felizes
porque meditam diante da terra que exulta e canta
nas sementes alegres que rompem do chão,
e porque param diante do mar a olhar a luz do sol
no dorso inquieto das ondas;
felizes
porque se entristecem sem razão; à hora mística do poente.
e se sentem felizes quando acordam cedo
ao olhar o nascente . . .
Felizes
porque riem de novo, purificados e bons, ingênuos e alegres
no riso das crianças,
e sofrem nas lágrimas amargas dos que realmente choram,
e esvaziam o coração toda vez que lhe estendem a mão vazia...
Felizes
porque estão calmos, porque nada pedem e tudo dão,
e recebem do céu, do mar, da terra,
mil dádivas de beleza e de poesia. . .
Felizes os que como nós, nunca estarão sozinhos,
nem nunca estarão nus, nem nunca estenderão ao mundo
a mão vazia,
- porque nunca serão pobres,
com essa riqueza extraordinária
que faz a alma da gente uma alma milionária
de sonho e de poesia!
Felizes os que sozinhos
nunca se sentirão,
os que terão a terra e o céu, o mar e o vento,
- o céu que dá mil estrelas, o mar que dá horizontes,
a terra que nos dá pão!
( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )
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