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" Mensagem ao Futuro "
(Ao General Manuel Rabelo
Friburgo, abril 1944)
I
Irmãos do mundo
atentai que vem perto a hora da Vitória,
- não deixeis que vos traiam, que o vosso sangue adube inutilmente
terras salgadas e estéreis...
Não deixeis que as palavras percam o sentido no momento decisivo
e se adiem indefinidamente os princípios da paz;
não deixeis que se embrulhem nas bandeiras dos vossos países
os vossos inimigos, que hoje são talvez os amigos, os que vos mandam morrer
pelos vossos ideais...
Irmãos do mundo, atentai para que não transijam
com o inimigo depois de derramado o vosso sangue,
e para que não reconstruam o mundo com os escombros do fascismo,
- para que não tenhais de lutar novamente,
na vida dos vossos filhos ou dos vossos netos
(quando já não será possível ressuscitar os vossos mortos
reconstituir os vossos lares, voltar para a retaguarda as vossas armas,
contra o reacionário e o burguês),
- porque percebereis tarde demais
que desvirtuaram a vossa luta, mais uma vez...
Irmãos do mundo, atentai, para que não se misturem às vossas fileiras
as procedências suspeitas que minarão a vossa conquista e hão de oferecer-vos
uma vitória de mãos e pés amarrados;
atentai para as vozes que vêm de cima e ficam atrás
para os gestos tímidos que tremem no instante do golpe,
para a palavra dúbia, que vacila como o fogo sem oxigênio,
para os vultos, que são apenas vultos e nunca serão homens!
Atentai para os que ergueram ontem as mãos espalmadas no ar, ameaçadoramente,
como a quererem, de repente, conter a própria evolução;
e incendeiam livros nas praças, e fuzilam crianças e pensamentos
nos cérebros criadores e nas praças bucólicas;
e fecundaram o ódio no corpo das mulheres indefesas
que hão de vingar-se, dando à luz homens livres,
para vencer o sentimento da morte
na vida nova imposta e indesejada...
Irmãos do mundo, atentai para o caminho da vossa luta,
para o fim do vosso sacrifício,
vigiai as retaguardas, para que elas sejam ainda o vosso mundo,
vigiai as retaguardas, para que por entre os hinos e as flores
não se escondam
os punhais do fascismo, afeitos à covardia,
e o veneno da burguesia, que se multiplicará minando
a vossa vontade
e a vossa compreensão . . .
Atentai Para a vossa luta para que possais conquistar com a vossa vitória
a paz que não deixará interrogações nos horizontes,
que permitirá aos vossos filhos cantar nas ruas,
brincar nos jardins
ler livros,
sem que vos ameacem jamais a sombra dos bombardeiros
e os ruídos apocalípticos que estremecem a terra
e as chamas que queimam papéis, cérebros e pensamentos...
II
Irmãos do mundo, chineses que trazeis nas carnes castigadas
o aço americano que perdeu a nacionalidade na ilha distante do Mikado,
irmãos chineses, que assististes atônitos às primeiras bombas no céu
e escondestes a cabeça sob as asas
se nem sabíeis como proteger as vossas crianças;
irmãos chineses, que continuáveis atrás da velha muralha, tão confiantes
como a decadência francesa em Maginat;
irmãos hindus, que morreis às centenas de milhares, com os estômagos vazios
onde a fome pesa mais que os "tanks",
que morreis envoltos nos vossos trajes brancos,
que são como vivas bandeiras desfraldadas
num estouro da raça, pelas cidades dominadas;
irmãos africanos, que vindes do recesso das florestas,
que vindes das florestas invioladas
trazendo na epiderme o luto dos tempos, que antevira a
a tragédia da África
e havia de vestir-vos todos com a noite;
irmãos negros, irmanados há quatrocentos anos aos elefantes
e aos camelos,
irmãos negros, que sois braços, como os elefantes são trombas,
como os camelos são corcovas,
para o Senhor branco que mora longe do campo e da floresta,
na Casa Grande, entre alvos cortinados,
jardins floridos, cavalos de raça e jogos de fastio...
Irmãos negros, filhos e pais das mulheres negras de leite branco
- leite branco de mulheres negras que alimentou os filhos
brancos das mulheres brancas
e o sensualismo dos lábios vermelhos dos homens de todas as cores,
- irmãos negros, que fecundastes a terra com as mãos,
o dorso sob o sol e o chicote,
o arado das algemas sangrando em vossos pés;
irmãos negros, que lançastes as bases de uma civilização
que esqueceu com o crescimento a vossa contribuição
e deixou-vos ficar no chão, e deixou de reconhecer-vos,
envergonhada de vós
inferiorizada pelo vosso imenso trabalho;
irmãos negros, que enchestes os porões com os vossos gemidos
e os mares com os vossos corpos trucidados;
irmãos negros que inspirastes o "Navio Negreiro" a Castro Alves,
que destes a vossa alma ao oceano, e até hoje gritais nas ondas e nos ventos
quando não há estrelas no céu
e há tormentas na terra, e há tormentas no mar...
Irmãos negros, que esquecestes o vosso passado,
que esquecestes a cor do vosso gemido,
do vosso sofrimento,
e da vossa tragédia,
e vos perfilastes ao lado dos pelotões anglo-saxões,
na África, na Índia, na Europa, em todo o mundo;
lembrai-vos que essa deve ser a vossa luta, a luta que vos integrará
numa humanidade sem cores, sem raças, sem limites!
Irmãos egípcios, irmãos árabes, irmãos eslavos,
irmãos latino-americanos,
filhos da terra, porque a terra é a nossa mãe,
porque a terra é o nosso genes;
irmãos de todos os climas, de todas as planícies,
de todas as margens, de todas as costas, de todas as montanhas,
que deixastes os vossos filhos, o vosso lar, o vosso trabalho,
ou que nada deixastes, porque nunca tivestes direito a nada;
irmãos analfabetos, sifilíticos, impaludados, anêmicos,
atentai na vossa luta
e não permiti jamais que Estados sem povo assaltem as vossas Pátrias
- Estados que nunca souberam de vossa existência -
e venham um dia exigir de vossos filhos o cumprimento de algum sagrado dever. ..
Não permiti, porque para estes Estados, vós e os vossos filhos
só existis na hora do perigo
quando vacilam os interesses deles
e quando por eles, e só por eles, deveis morrer!
III
Irmãos do mundo
não vos perturbeis com a Glória, nem com as palavras agudas de comando
que vieram com clarins e soaram tão bem;
pensai apenas no vosso mundo, na paz que desejais conquistar,
pensai apenas nos que morreram muitas vezes por palavras mistificadoras
traições vestidas de elevados e sublimes ideais;
pensai que em verdade, só se justificará o vosso inumerável sacrifício
se tiverdes conquistado para os vossos filhos
a Paz...
Pensai que não adiantará deixar apenas medalhas e feitos gloriosos
para os vossos filhos,
nem gestos imortais, nem interessará deixar o nome na história,
num túmulo desconhecido
ou numa estátua qualquer;
- vistes que a memória dos homens não vai além de um tiro de fuzil!
- o mundo que deveis deixar, deve ser imenso e sem limites...
Pensai que o que vos interessa é a vossa paz, é um mundo
construído com segurança
onde tereis do ar, da terra, do mar, do sol, da liberdade,
o que for necessário para os vossos pulmões, para os vossos pés,
para os vossos braços, para os vossos olhos, para o vosso pensamento,
para o vosso coração, para a vossa vida, para o vosso destino!
Pensai que o que vos interessa é a garantia do vosso lugar e do vosso trabalho,
do vosso chão e do vosso espaço,
a garantia da justiça para os que ultimarão a grande obra!
IV
Irmãos do mundo
não vos perturbeis quando a paz vier com o silêncio profundo,
paz que sucederá
ao último estrondo de canhão
e ao derradeiro ai perdido no ar.
Não vos esqueçais de que quando tiverem desaparecido
os derradeiros fascistas
(os últimos fascistas que saturarão com a sua morte
a vingança necessária ao coração
como a chuva à terra ardente,
a vingança que será bela porque será o banho lustral
da justiça que não falha),
- há de restar para o início de um mundo novo,
uma humanidade de homens livres
que nascerá do chão com a força das sementes nos terrenos férteis
depois da grande chuva;
e nessa humanidade todos nasceremos necessariamente do chão,
porque, oh! meus irmãos, a terra é a nossa mãe,
e o espaço o nosso destino...
E então,
extirpados do solo os vestígios da reação, e com ele
todos os tiranos e todos os exploradores,
não vos esqueçais de que os que restarem serão homens,
homens como vós,
vivam eles na Alemanha, no Japão ou na Rússia,
na Abissínia, na América ou na Oceania;
- em verdade vos digo que todos são homens como vós -
procurai-os para o vosso convívio, aceitai-os para o vosso mundo,
confundi os vossos corações e as vossas mãos,
- porque eles são nossos irmãos!
Em verdade vos digo que não deveis esquecer que todos são homens
porque ou conseguireis integrá-los todos no vosso mundo,
ou tereis lutado inutilmente
e adiado para os vossos filhos ou para os vossos netos,
a grande confraternização,
e o caminho será de sangue e será mais negro do que o vosso
porque é depois da luz que a treva parece maior...
Irmãos do mundo
em verdade só há um limite e só há uma fronteira
entre dois únicos países;
de um lado: - nós,
os que queremos a terra sem donos, os homens sem donos,
o pensamento sem donos,
porque a terra será nossa, e porque nosso será o nosso pensamento
e porque seremos nós;
e do outro: - os que se fizeram donos da terra,
donos dos homens e dos pensamentos.
Não importa o nome destes dois países,
- ou morrem eles
ou morreremos nós!
Só a nossa Vitória apagará do mundo esta última fronteira
e já não haverá dois países
e já não haverá uma luta,
porque então será a paz
e seremos todos irmãos!
( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )
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