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Marcha Fúnebre "
( No dia em que Paris se entregou sem luta - 1940)
   


O silêncio acusará... só o silêncio terá voz!

Em silêncio protestarão os bronzes das estátuas
de todos os heróis
- dos poetas, dos pensadores,
que impotentes assistirão á passagem triunfal
dos invasores!

E as ruas desertas... e as portas fechadas... e as casas
e as janelas cerradas
na mudez das fachadas;
e as cidades sem alma, ermas e frias,
e o olhar ausente das estátuas de órbitas vazias
- receberão o invasor
com o silêncio emocional da sua imensa dor
e das suas agonias!

E o ruído dos cascos nas pedras dos caminhos
violados
e nos campos abandonados,
e a algazarra triunfal,
- percutirão na alma da França como um dobre de finados
num funeral!

O negro asfalto do solo parecerá o luto
com que se cobrem as ruas e avenidas
humilhadas e ofendidas!

E a noite envolta em crepes, e a noite em luto intenso   
não ostentará a feerie luminosa das estrelas distantes   
nem os colares das luzes e os diademas brilhantes   
dos letreiros iluminados!

E de luto estarão todos os olhos nublados
e sem esperança,   
e os retratos velados   
escondendo a visão de todos os gigantes
tombados pela França!

E de luto estarão as bandeiras em todos os mastros
e as árvores, e os pássaros, e os rios, e os astros,
e os mares, e as montanhas de granito
vestidas em densos véus,
- e os pirilampos na terra, e as estrelas no infinito
dos céus!

As hordas passarão... passarão... passarão...
E dias e noites, os ecos dos cascos, ecoarão . . . ecoarão . . .ecoarão...
nas solidões distantes...
- no silêncio sepulcral das cidades destruídas,
e nas almas, e nas feridas,
e nas ruínas fumegastes!

Que silêncio, meu Deus! . . . A França emudeceu!

No alto dos céus, o Sol estrangulado e exangue
num lago imenso de sangue,
tombou . . . e morreu!


( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )


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