
![]()
*****************************************
" Libertação "
( A Olegário Mariano -1938 )
Não tenho culpa se as minhas retinas
tem a profundidade do infinito!
Se nasci trazendo
o debrum dos horizontes dentro dos olhos claros!
Não tenho culpa se em minha adoração sem templos
sem deuses, sem altares,
amo as belezas realmente belas:
as planícies sem fim, as ondas inquietas,
a arrogância dos picos ferindo as alturas,
toucados de neve, pintados de sol,
pagãos! no paganismo das belezas puras!
Não tenho culpa se alguns homens não compreendem as palavras
das minhas orações,
se não distingo a linguagem dos homens pelas fronteiras
pelas gramáticas
e pelos canhões!
Compreendo todos os homens em qualquer língua estranha,
morem eles para além daquele rio
ou para atrás daquele vulto de montanha;
nasçam eles nas terras onde a vida custa a chegar
vivam eles nas terras onde a vida arrebenta cedo
amadurecida de seiva
para morrer mais cedo, incendiada de sol!
Em verdade a linguagem não separa os homens!
As montanhas,
os rios,
o mar,
o próprio mar imenso não separa os homens,
se os próprios continentes têm sempre um ponto
onde vão se encontrar!
Não tenho culpa
se o meu metro espiritual não sabe medir terras
e não pode medir terras,
se é irmão daquele metro que mede em anos-luz
a distância dos astros nas esferas!
( Porque os homens estão perto demais para que eu possa medir
as distâncias que os separam,
e a terra é pequena demais
para que eu possa dividi-la em frações que não alcanço! )
Eu sorrio dos homens
e aceito o espetáculo grátis da ignorância e da maldade
quando se trucidam uns aos outros...
São ridículos seus gestos
tragicômicos os seus desejos
inconscientes os atos que praticam!
Falam e gesticulam sobre irrisórias grandezas
conquistadores gigantes de extensões sem início!
Conquistadores de quintais vizinhos
de meia dúzia de homens
de um pedaço de rio que nasce em fontes alheias
e de um trecho de céu que não podem tocar!
No amor
no espírito
como nas terras
não conheço fronteiras que separem os homens!
E não tenho culpa se as grandezas de que falam
são migalhas que os meus olhos infinitos não vêem,
que os meus dedos azuis não tocam,
e os meus braços de horizontes não sentem para abraçar!
Não me empolga essa humanidade de anões e pigmeus
de símbolos e bandeiras
de gestos humilhantes
e reverências bastardas,
sujeita, como as manadas, ao estocão dos guias
e ao medo irrefreável e cósmico
do "estouro"!
(- Humanidade,
de heróis de gesso folheados de bronze!
de deuses de barro vestidos de ouro!)
Quando me falam de terras
eu me ponho a pensar: quantos milhões de terras
não giram pelo espaço nesses milhões de sóis
que são milhões de estrelas?!
Porque os homens se esqueceram de que os pés devem pisar a terra
e os olhos devem olhar para o alto!
..............................................................................................................
Não tenho culpa se as minhas retinas
têm a profundidade do infinito!
Se nasci trazendo
o debrum dos horizontes dentro dos olhos claros!
( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )
*****************************************