*****************************************


"
Fraternidade "
                                               (Aos soldados aliados de todas as frentes
                                          e retaguardas - Friburgo, maio, 1944)
   
 
Já agora somos irmãos,
- não só porque corre o mesmo sangue em nossas veias,
mas irmãos pela terra, onde derramaremos nosso sangue,
e de onde nascerá a mesma erva
e onde, - num tempo remoto - se abrirá
a mesma flor

Já agora somos todos irmãos,
- se morreremos com o mesmo toque de avançar
no ouvido e na consciência,
e cairemos, - quem sabe? - sob os estilhaços da mesma granada
que arrancará para sempre a luz dos nossos olhos
e marcará a eternidade em nossos corações...

Já agora somos todos irmãos,
se poderemos desaparecer na mesma onda do mar
na noite de sombras, sem faróis,
ou se poderemos cair de joelhos na terra,
vencidos pela mesma carga de metralha,
quando o fogo é o deus da fantástica e inevitável religião
e a terra, o altar de todos os que não voltarão...

Já agora somos irmãos, se partiremos todos pela mesma razão
e pelos mesmos pensamentos
mais uma vez confiantes,
mais uma vez idealistas,
esquecidos da confiança e do ideal que moveram nossos pais
que foram traídos,
e para que nossos filhos já não precisem
dessa confiança e desse ideal
porque ninguém nos trairá!

Já agora somos irmãos
se seguiremos todos sob o mesmo comando,
se aprendemos na cartilha das mesmas armas estranhas e desconhecidas
a falar o mesmo idioma de fogo e de aço,
- pela liberdade!

Já agora somos irmãos, - nós que na paz não éramos irmãos...
Nós que nos separávamos pelas palavras e pelas cores
pelas bandeiras e limites,
- já agora somos irmãos!
Falam do mesmo modo os fuzis que aprendemos a manejar,
é uma só a bandeira da verdadeira Democracia e do Mundo,
e não há fronteiras na vala aberta nos campos de batalha...

Já agora somos irmãos, - o pensamento da morte poderosa
nos confraterniza e nos faz homens,
damos juntos os braços, vestimos a mesma farda, pensaremos na mesma hora
em nossas terras, em nossas mulheres e em nossos filhos,
- os que ficarão esperando a nossa volta
para que se cumpram as promessas
e se construa o mundo melhor...

E morreremos quase de mãos dadas, - porque o nosso sangue
formará uma única poça
e coagulará no mesmo instante,
quando nossos olhos se esquecerem de tudo
e nossos corpos forem apenas dois corpos,
nada mais...

Já agora somos todos irmãos,
e poderemos morrer, porque os que voltarem
ainda de armas na mão, sujos de terra,
dirão que éramos irmãos,
e continuarão juntos na paz, ou na luta que poderá prolongar-se
e não deixarão que os nossos filhos tenham de formar novamente
num outro chão atribulado e rude
uma poça de sangue...

Sim, demos as mãos companheiros do mundo
demos todos as mãos,
já agora poderemos partir, e lutar, e morrer,
se sabemos o que queremos! Se somos todos irmãos!


( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )


*****************************************

Home