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Derradeira Mensagem de Natal "
                                        ( À Don Carlos Duarte da Costa,
                                           Bispo de Maura - Dezembro, 1941)


                        
"Senhor! A água da fonte
                                                            que tão pura nasceu entre as pedras do monte
                                                            pequenina e escondida, e que era clara e doce,
                                                                hoje é turva e pesada, é amarga e envenenou-se!"
                                                                                                              (Do autor: "Cânticos", pág.. 146)

I
POR ISSO EU VIM DO SILENCIO...

Bem sei que já não há ouvidos para a minha voz,
e já não há consciências
para o sentido das minhas palavras,   
se todos já partiram com os olhos vazios e assombrados
e se muitos já deixaram o coração na terra...
   
Bem sei que o meu gesto será vão e inútil,
como o do arbusto que se ergue
contra a avalancha que rola inconsciente e selvagem
e tudo destrói, e tudo arrasa, e tudo leva
à sua passagem!

Bem sei que agora é tarde, e já não posso, Senhor,
pretender aclarar a noite densa e sem astros
onde os homens parecem ofídios, de rastros,
- com a luz de um pequenino fósforo que achei...

Bem sei que é tarde, Senhor, para os homens
que se foram e se perderam,
para os homens que enlouqueceram,
bem sei, bem sei...

Mas eu reli as vossas palavras, Senhor,
e eu meditei novamente sobre elas
como quem tira do lodo estátuas puras e belas,
e ouvi pelo jardim onde ainda há flores coloridas
e ouvi pelo quintal
o riso das crianças inocentes e distraídas
incautas e felizes...    inconscientes do mal...

E de repente, Senhor, reacenderam-se velhíssimas esperanças,
acordes de um imortal, de um infinito amor,
e eu comecei a pensar, ouvindo, ao longe as crianças:
- a quem implorar por elas, senão a vós, Senhor?!

Por isso eu vim do silêncio do meu desespero profundo
em meio à algazarra fantástica que é a marcha funeral
do próprio mundo,
neste dia de Natal,
trazer-vos a derradeira mensagem dos derradeiros cristãos
em favor dos pequeninos, os que hoje brincam e cantam
como irmãos,
e amanhã, como nós, se odiarão afinal!

II
SENHOR,  EU COMPOREI UM HINO

Senhor! Eu comporei por isso um hino,
um hino com todas as notas e todas as letras,
um hino universal,
e chamarei para entoá-lo as milhares de vozes negras
de todos os Harlens;
e as toadas da angústia dos barqueiros de todos os Volgas;
e as cantigas dos praieiros, dos pescadores e dos jangadeiros
de todos os mares;
e as palavras de todos os homens, vivam eles no exílio agreste dos sertões
ou morem nas montanhas vestidas de selvas densas e neves puras;
corram eles pelas planícies mesopotâmicas forradas de pastos e ervas,
e toquem flauta como os velhos pastores
ou arrastem seus pés na areia fulva dos desertos imensos e isoladores. . .

E todos eles acorrerão ao meu chamado, Senhor, porque eles todos,
homens de todos os destino
têm filhos pequeninos...

E eu pedirei, Senhor, as palavras sem música,
as palavras de alegria ou de tristeza
dos homens que descem nas entranhas da terra a procurar seu coração
e que encontram, às vezes, o ouro;
e dos que abrem sobre rios e precipícios as longas pernas mecânicas
das pontes;
e os que dão força ao braço do guindaste,
e rumo aos navios, asas aos aviões
que devassam os horizontes;
e os que amassam o pão, e os que amassam a uva e os que amassam a terra;
- e as palavras do idioma ainda não conhecido dos loucos pacifistas
clamando contra a guerra!


E eu pedirei, Senhor, inspiração aos corações de todos
os continentes, aos homens de todas as cores,
irmãos brancos pela consciência da paz e do amor...
Homens do Norte, que sabem de cor os versos longos e humanos de Whitman;
homens do Sul, que têm a alma livre do pampeiro e a memória de Sarmiento;
homens de todas as terras, de todos os mares, ilhas e montanhas
homens de todas as raças as mais bizarras e estranhas...

E todos eles me ajudarão, Senhor, porque eles todos, homens   
de todos os destinos,
têm filhos pequeninos...

E eu tirarei, Senhor, os gemidos dos enfermos de todos os hospitais;
e a cantiga de todas as mães que embalam berços felizes;
e os gritos de todas as mães que velam berços vazios;
e os primeiros vagidos de todos os inocentes que ainda não viram a luz
nem a beleza da terra, nem a grandeza do mar, nem a correnteza dos rios;    
       
- e as prédicas dos mestres nas escolas; e as juras e os sussurros indistintos
que povoam as margens das estradas            
onde se perderam corpos e almas enamoradas;       
e eu enfiarei numa linha infinita todas as lágrimas órfãs,
amantes ou estremecidas,   
minúsculos esquifes de milhares de vidas;   
e com tudo isso eu comporei, Senhor, esse hino universal
para o vosso Natal!

E repetirei ainda as parábolas dos versículos bíblicos;
e voltarei a Confúcio para que ele me repita as verdades incipientes;
e me concentrarei para encontrar de novo os ecos de Jeremias;
e me vestirei com o lirismo cósmico de S. Francisco de Assis;
que eu quero compor com todas as vozes, com todas as
angústias e todas as alegrias
com todas as emoções de um mundo ansioso e infeliz
um hino que seja a mensagem universal de todos os homens,
que valha mais que os toques
de todos os sinos,
pelos que estão puros, pelos que ainda cantam,
pelos pequeninos!


III
   VOLTAI, SENHOR, AO MENOS
    PELOS PEQUENINOS


Voltai, Senhor, ao menos pelos pequeninos, ao menos pela
esperança imorredoura
de uma outra humanidade em gestação,
que saiba se orgulhar da tosca manjedoura,
que acredite no amor, na paz e na igualdade,
e, quem sabe ?... até mesmo na Ressurreição !

Voltai, Senhor... ao menos pelos pequeninos,
os que ainda poderão seguir
a vossa crença
- vinde fundar de novo um novo cristianismo   
com a vossa presença...

Já se apagaram do chão as pegadas do Calvário
e se perderam de há muito os vossos ensinamentos...

Em verdade ficastes sozinho e sem apóstolos à vossa mesa...
Os homens se esqueceram da vossa passagem no mundo
e perderam o sentido da vossa fé sem mácula,
da vossa imensa pureza

Voltai, Senhor!, só vós podereis encontrar um novo início
para a jornada transviada
e para o percurso extenso já perdido...
Só vós podereis dizer que esses não são os vossos princípios,
que essas não são as vossas palavras,
que essa não é a vossa religião;
- só vós distinguireis na inominável confusão
as figuras de Pedro, o apóstolo e de João, o pastor,
do semblante de Judas, o mercenário traidor...

Voltai, Senhor, tende coragem de manchar com o vosso
sangue os muros brancos
já vermelhos e retintos
onde - como na velha Roma - caem vagas de mártires e inocentes,
desta vez ante a gula de pelotões inconscientes
e de fuzis famintos!

Vinde à terra, repeti o itinerário
dos santos peregrinos,
não pelos homens já perdidos num mundo sanguinário,
mas pelos vivos e os que são inocentes
- pelos pequeninos!

IV
        EU NÃO CREIO QUE SEJA ESSA    
    A VOSSA HUMANIDADE...


Eu não creio que seja essa a vossa humanidade,
sejam esses os vossos filhos,
os que bebem do vosso vinho e comem do vosso pão,   
os que provaram do sal, e da água do Jordão...

Não creio que eles venham dos vossos princípios e falem
a linguagem universal
da vossa filosofia de fraternidade;            
não creio que eles venham da própria terra,
do ventre das catacumbas
(que os que vieram deste ventre são todos por sua origem        
irmãos)
- eles vivem numa outra sombra e têm as almas imundas        
nem fazem mais sobre a terra a velha cruz dos cristãos!

Eu não creio, Senhor, que da vossa palavra de pureza e humildade
semente de luz e paz, fraternidade e amor,
nascessem homens, que de homens têm as formas e as carnes,
só as carnes e as formas, nada mais, Senhor!

Onde andarão os meus irmãos que acreditavam em vossos ensinamentos
e pregavam os vossos mandamentos?

Voltai, Senhor, - e ajustai essa humanidade infestada de instintos bárbaros
e animais,
à vossa crença de pureza excelsa, ao vosso amor que é perfeito,
e à grandeza infinita
da vossa paz!

Fundai um novo Cristianismo, que o que fundaste há dois mil anos quase
- eis a verdade que assombra! -
já não tem cúpula nem base
ruiu com o caos e mergulhou na sombra!

Dos cimos da igrejas e catedrais faustosas, as cruzes todas tombaram
e aos milhares e aos milhões se amontoaram
sobre o chão
- eis, Senhor, o que resta da vossa religião!
           
V
QUE SERÁ DO MUNDO ENTÃO...

Que será das crianças que não reconhecerão jamais os seus brinquedos
e nunca mais encontrarão as suas alegrias
e guardarão na distância da memória perturbada
a visão do terror e a lembrança de seus pais?

As crianças, que de repente - ficarão com os olhos turvos e profundos
as crianças pensativas
que indagarão muitas vezes às recordações mais esquivas:
- onde estarão as mãos suaves que preparavam minha merenda?
e a voz que cantarolava para eu adormecer,
e aqueles olhos amigos que me descobriam o mundo,
e aquela história, e aquela lenda que eu não chego a lembrar,
mas não posso esquecer?...

Que será das crianças, Senhor
- elas, as inocentes que pagarão a suprema culpa,
arrancadas da vida como plantas tenras,
as crianças infelizes
que nunca mais encontrarão o chão para deitar suas raízes!

Fazei-as odiar, Senhor, os erros de seus pais
e aproximai-as do amor, e aproximai-as da paz!

Elas, as órfãs, as almas espavoridas, filhas da dor sem remédio
e da tragédia sem nome
compreenderão realmente as vossas palavras
e propagarão finalmente a vossa fé!
Elas, que como pedras rolaram no mais profundo
abismo
se unirão nos alicerces de um novo mundo
de um novo cristianismo!

Voltai, Senhor, ao menos pelos pequeninos
- que enchiam de algazarras as ruas
e de festas os jardins,
os que punham cantos de sol nos pátios das escolas,
"papagaios" no céu, piões nos terreiros, bolas nos campos,
gritos nas quintais,
voltai, Senhor - que eles são os herdeiros dessa herança
fatídica: a loucura e a inconsciência de seus pais!

Voltai, Senhor, livrai-os dessa tara hedionda,
purificai-os, Senhor,
e, ao som da vossa música, tocai-os como os rebanhos
para novos horizontes,
para as pastagens de sol, onde há relvas e fontes,
levai-os para outros climas, oh! sublime Pastor!

Que será do mundo então, quando os jardins silenciarem,
no dia em que os lábios das crianças já não tiverem sorrisos
e em que seus corações já não puderem brincar?

Senhor, que será do mundo, mortas as últimas esperanças,
quando as próprias crianças
só souberem chorar?

VI
SECAI OS RIOS E OS MARES...

Nesse dia, Senhor, levai do céu as vossas estrelas,
dos espaços as vossas aves,
da terra as vossas árvores,
deixai que emurcheçam as flores, estéreis e inúteis,
secai os rios e os mares,
e arrancai de certas almas recalcitrantes a angústia da beleza
e da poesia
- porque já não haverá vida, já não haverá humanidade,
já nada mais haverá, em verdade,
nesse dia!

( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )


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