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"
Credo da Vitória "
                                                       
     (À Carlos Drummond de Andrade,
                                                             Friburgo, 15 de fevereiro de 1944)
   


Cremos na Vitória porque cremos na velha China
indomável, que renasce todas
as horas e todos os dias
das cinzas dos seus mortos,
das suas agonias
e da mesma aflição,
e se multiplica no milagre do ódio e da insubmissão...

Na velha China, que descruzou as pernas sob o ventre
filosófico de Buda
e levantou a cabeça, e aparou as tranças,
e ergueu os punhos armados
num rompante de dor,
para vingar suas cidades arrasadas,
suas crianças trucidadas,
e suas mulheres violentadas pela força e pelo terror...

Na velha China pacífica de Confúcio, que aprendeu
finalmente na cartilha desapiedada
dos bombardeios cegos
a linguagem de sangue do invasor...

Cremos na Vitória, porque Londres continuará de pé
como um desafio,
ostentando as cicatrizes de suas ruínas
que parecerão iluminadas na névoa
das noites silenciosas e em "blackout"
pelo "fogo-santelmo" de um heroísmo imortal...
Da Londres que se contorceu nos incêndios crepitantes
e imunizada pelo próprio fogo emergiu das chamas alucinantes
num gesto triunfal. . .

Cremos na Vitória, porque sobre as estepes
de brancura sem fim
maculadas pelo sangue dos bárbaros
Moscou permaneceu intangível e intacta,
velando com suas torres e abóbadas
o sono imperturbável de Lênine,
e barrando a miragem com mortífero fogo!
Porque nas fábricas de Stalingrado lateja o coração
de uma Rússia invencível
que pôs em cada rua, em cada casa, em cada palmo de terra,
em cada nervo, em cada disparo,
um pedaço da alma de seu povo!

Cremos na Vitória, porque Pearl Harbour já foi vingada,
e porque o espírito de Pearl Harbour
sacudiu a América e perfilou-a como um só homem
de Sul a Norte,
- e porque Washington, Bolívar, Juarez, - Tiradentes,
nos legaram um Continente e as tradições de povos livres e indomáveis
que não temem a morte!

Cremos na Vitória, porque estão conosco,
seres de todas as raças, de todas as cores,
de todos os credos,
homens conscientes que não se deixarão trair
e conquistarão a paz e a liberdade
com as suas forças invencíveis e o seu ódio profundo!

Cremos na Vitória, - porque cremos nesse ódio sagrado
que destruirá um mundo
mistificado pelos prepotentes
construído sem justiça e sem amor,
e porque cremos naquelas forças inesgotáveis e eternas
que reconstruirão a vida, sobre bases humanas e fraternas,
ao chegar a bonança, após o temporal da dor!

Sim! cremos na Vitória!
E erguemos nossas vozes no cântico deste credo
por todas as terras e por todos os horizontes
para além de todas as fronteiras
e à frente de todas as bandeiras
numa única voz...

E cremos na Vitória, porque cremos nas crianças
que ressuscitarão como as flores nos jardins arrasados,
nas mulheres que regressarão das oficinas para os lares
nos trens que apitarão festivos pelas gares,
nos homens que voltarão das trincheiras para o mundo,
- porque cremos em Nós!


( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )


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