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"
Canto do Tempo "
                            ( 1944 )

   
A tua voz também estará no apito dos navios que vão e vêm
por todos os portos,
trocando paisagem na retina dos viajantes
e misturando destinos, raças e bandeiras!

E estará no guincho das ferragens  dos guindastes curvados
em filas, pelos cais,
como os vultos dos trapicheiros com os fardos pesados
às costas;
e estará em todas as engrenagens, em todas as máquinas,
e na protofônica orquestração metálica
dos seus êmbulos, dínamos e alavancas!

E estará no apito do trem resfolegante
varando a noite com seu vulto sinuoso
e expresso,
a cantar pelos trilhos a ária estridente
do progresso!

E no ruído fantástico de besouro irreal
que é a alma da cidade,
e na zoeira infernal, e no sonoro escarcéu,
dos motores dos aviões entoando pelo céu
o hino da velocidade

E no buzinar dos automóveis, e no apito de todos os
veículos
com as suas ferragens
nas derrapagens;
e na algazarra da cidade - que é onde o rio da vida
tem a sua foz,-
e nos gritos dos homens, dos vendeiros, dos jornaleiros
estará a tua voz!

Em meio à coral inorquestrável, beethovênica
e wagnérica,
da sinfonia da cidade dinâmica e feérica,
meio tonto, meio divino, meio atordoado,
- farás o solo inconfundível
e destacado!

Porque então tua voz será o canto do século,
tua poesia a vida do teu tempo,
e teu destino
a letra universal de um imponente hino!


( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )


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