
![]()
*****************************************
" Canção do Desalento "
(
A Osório Dutra- 1940)
Já não sei se encontraremos um lugar sossegado
onde erguer nossa casa!
Um campo onde lançar as sementes que serão árvores
e serão frutos!
Já não sei se encontraremos a paz das paisagens bucólicas
onde completamos a Terra!
Já não sei se os nossos filhos poderão correr livremente
pelos caminhos.
- e não sei se vale a pena explicar aos nossos filhos
que a terra é boa,
que o sol fecunda,
que o ar é a vida,
que as flores amam, os pássaros sonham, os homens trabalham!
Já não sei se poderemos encontrar esse recanto sossegado
para a nossa Vida,
porque a fumaça que veste de luto os horizontes não sai das chaminés
das casas felizes!
E esse ruído que ouves no solo - não é o ruído das enxadas
e dos arados
na terra dura,
e esse canto que escutas não é canção da alegria
e da fartura!
E esses passos que pisam ritmicamente o mundo na distância
e que chegam aos teus ouvidos
como uma assombração,
tu não sabes de onde eles vêm
nem eles sabem para onde vão!
Roubam-te as enxadas, arrancam-se os sinos, levam-te os arados,
destroem-te a casa,
interrompem as pontes,
violentam os trilhos ...
Em verdade, meu irmão,
estão tintos de sangue os horizontes,
já não sei se encontraremos um lugar sossegado para a nossa casa
e para os nossos filhos!
( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )
*****************************************