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" A Carta Que Não Chegou "
( A Ladislau Stowinsky - 1944 )
Eu também queria viver para a alegria pura de criar
para o convívio das obras que nos contam da vida e da beleza;
para beijar as mulheres que me oferecesse as suas carícias
e aceitasse uma parcela de minhas preocupações;
para regar as plantas de manhã cedo, quando o sol
ainda não desceu das montanhas,
e dizer para as crianças não pisarem nos canteiros;
para podar o jardim e encher o jarro de flores
de flores macias e frescas como as faces das crianças;
para sentir no corpo sadio a ducha fria do chuveiro
e a alma cantar feliz numa canção qualquer.
eu também queria viver para levar orgulhoso pela mão, o meu filho,
para a escola que canta ao longe como um viveiro de pássaros;
e tomar posse, com ele, pelo caminho, das belezas insuspeitáveis,
e ensiná-lo a ser puro como a manhã, e a ser bom como a terra
e ensiná-lo a deslumbrar-se diante das coisas simples:
- uma gota que ficou brilhando imóvel, trespassada num espinho...
- um pássaro que apanhou, ligeiro, um pedaço de grama...
- um botão que se entreabre ainda molhado da noite
puro como um sonho de criança que não adivinha a vida...
- um menino passa de bicicleta, assoviando...
- o jornaleiro que não sabe que leva a História na mão...
- uma semente que alteia o chão e vence a terra
no supremo milagre da beleza: - à procura do sol!
Eu também queria viver, para voltar e encontrar a mesa posta,
a toalha limpa, o prato branco, o pão cortado,
os talheres brilhando, os guardanapos dobrados;
para deitar-me cansado e adormecer depressa, conversando,
sem perceber que estou dividindo as coisas mínimas
e que há alguém que dá valor às minhas mínimas coisas;
eu também queria viver para as horas leves que passam
sem que cheguemos a perceber que são as horas de prazer,
para um dia então nos lembrarmos, de que elas foram, em verdade,
as horas boas e inesquecíveis de felicidade...
Eu também queria viver, sem esperar e temer a morte todos os segundos,
sem pensar que ela é o fim necessário, a grande paz inviolável;
sem esse medo da chuva, da noite, do inimigo,
sem ter que me alimentar de pensamentos dolorosos e vãos
e me contentar com a esperança vaga de um tempo perdido...
Eu também queria viver, - nessa grande felicidade intraduzível
de quem vive feliz sem saber mesmo que está vivendo;
sem essa presença angustiosa de todas as coisas e de todos os seres
que amamos e que desejamos como à terra e como à vida,
e que só a dor e a ausência tornam poderosamente presentes...
( Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" O Canto da Terra " 1a edição - 1945 )
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