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" Três Poemas à Manhã "
I ESPERDÍCIO
Hoje fiquei sem palavra
- estatelado, mudo -
diante da manhã.
Manhã clara e doce
como se houvesse
mel
na luz do céu !
Como se o espaço fosse
( ao ouvido ou ao olhar?)
uma imersa colmeia,
- e a luz um intenso zumbido
no ar ...
. . . Perdão, Senhor, se tentei buscar a palavra
para fixar um instante
da tua obra,
se quiser ser Poeta nesse momento,
nessa manhã que não cabia em meus olhos
e era um esperdício da criação:
- um deslumbramento!
II DESCULPA
Um rumor de água pura, de água de montanha
cantadeira,
toca música e liqüefaz violinos
à distância...
Nas jardineiras das janelas,
os gerânios são modestos enfeites
nume festa suntuosa.
Riscando o espaço, os pássaros
dão asas ao azul!
O sol
é uma imensa cigarra de ouro
e estridular no céu !
Senhor! Perdoai minha alma de poeta
a sentir-se hoje fora de mim,
irmã de S. Francisco!
Devo ter feito qualquer coisa de bom
para poder sentir-me assim,
- para merecer tudo isto !
III AGRADECIMENTO
Abri a janela
para a manhã que me tomou de surpresa
com a sua adolescente beleza,
seu céu azul, esmaltado,
e me deixei ficar, por um momento, em silêncio
deslumbrado...
E só pude dizer finalmente,
com a humildade de crente:
- Obrigado !
(Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" Cantiga do Só " 2a edição 1968 )
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