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Rio: Sempre Capital "

   
Como hei de falar de ti,
sem que me ocorra a poesia?
Rio: poesia-mural.

Ó cidade das cidades,
que, com suas claridades,
à noite, é um polvo de luz
num aquário tropical,
e, ao sol, ao clarão do dia,
é uma flor descomunal!

Ó cidade das cidades!
Rio: sempre capital

Vá o Bandeira pra Passárgada,
o Cassiano pra Brasília,
vá pro inferno quem quiser!
Eu, não! Eu fico onde estou!
Na cidade mais bonita
que o homem fez e Deus criou:
- e aqui que meu corpo sofre,
- é aqui que minha alma habita,
- é aqui que eu amo e que eu sou!

Eu fico aqui no meu Rio,
meu Purgatório e meu Céu.
Rio apenas, de Janeiro,
mar, de Janeiro a dezembro,
que em lindas praias se assanha:
Rio negro, Rio branco,
Rio carioca, estrangeiro,
Rio mesmo brasileiro
e ate mais: universal.
O meu Rio de Janeiro
que corre trezentos dias
seus enganos, suas magoas,
pra desaguar suas águas
nos três dias de alegria
do Oceano do Carnaval!

Eu fico aqui no meu Rio,
"cidade maravilhosa",
- como quem sofre, quem goza,
com seus bens, suas mazelas,
seus mangues, suas favelas,
"café soçaite", gafieiras,
seus subúrbios, Paquetá
e o tal luar, como aquele
do Catulo Cearense,
"que igual no mundo nao há".

Rio, imensa Babilônia,
Tijuca, Meyer, Mangueira,
Castelo, Copacabana,
domingos de mar e sol.
Maracanã, futebol.
Rio "caixa-alta", bacana.
Municipal, muita grana,
que usa gravata e chapéu.
Rio dos morros, cantando,
que sobe a desce sambando,
Rio mais perto do céu.

Sair do Rio? Bobagem!
Saia daqui quem quiser.
Eu, não ! Que eu sou carioca
de coração e paisagem.
- E que não fosse, meu Deus!
Que terra há melhor que a nossa?
Terra do amor e da bossa,
feita pra gente chegar nunca
pra dizer adeus...

Eu fico aqui no meu Rio
- minha terra prometida –
minha esperança, meu "norte",
o meu Rio que "é de morte"
mas onde eu quero viver,
o meu Rio, minha vida,
mas onde eu quero morrer!



(Poema de JG de Araujo Jorge -  do livro
" Cantiga do Só  "  2a edição 1968 )


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