
![]()
*****************************************
" Quatro Sonetos ao Soneto "
I
O soneto é uma taça de cristal
que o Poeta - esse artesão de sentimento
trabalha com paciência sem igual,
para sua alegria e seu tormento !
Misto de Vida e sobrenatural
o impele a esse trabalho num momento,
- e o amor, e a morte, e o sonho, e o bem, e o mal,
são a causa do seu cometimento.
O soneto é essa taça onde derrama
toda a sua alma, - em risos ou em prantos
quando sofre, deseja, anseia, ou ama...
Ó taça misteriosa de ambrosias !
Quantos de ti se servem, com seus cantos,
e, entretanto, tu nunca te esvazias !
II
Fino frasco de forma nobre a pura
e ao mesmo tempo taça de cristal,
- onde a vida, em beleza se emoldura
e canta como um órgão musical.
Em transe, o Poeta sempre te procura
para desabafar, sentimental,
seu pobre coração que se amargura
ou seu canto de amor belo a triunfal.
Cabe em ti, tudo quanto em nós palpita,
tudo quanto se sonha ou se concebe
- a finita emoção, a alma infinita...
Vinho de uva da Vida que se pisa,
- és, a um só tempo, a taça em que se bebe,
e o frasco em que a beleza se eterniza!
III
Escadaria e templo da Beleza!
Por teus degraus, em penitência, quantos
tentaram com seus versos e seus cantos,
conquistar tua estranha natureza.
São catorze degraus, - de desencantos
e sonhos, - de alegria e de tristeza, -
e a alma subindo, e cada vez mais presa,
despojando-se aos poucos de seus mantos.
Templo de anseios ! Partenon da Vida!
Por teus degraus, as almas, em subida,
te exaltam nos ofícios mais diversos...
Eis que também cheguei - como um Rei Mago,
e o coração de um poeta é o que te trago
no culto fiel destes catorze versos!
IV
Misto de Partenon e Catedral
por dóricas colunas sustentado;
templo de mil imagens, trabalhado
com o mais nobre, e o mais puro material.
A palavra é o seu sino e o seu vitral,
o mármore em que deve ser talhado, -
e a inspiração - o doce sopro alado,
"fiat lux" do espirito imortal !
Templo de minha crença e de minha Arte,
também eu te construo, e me prosterno
e me ajoelho para celebrar-te
com a minha fé e as minhas heresias,
e aos pés do Amor, que é o Deus único e eterno,
rezo magoas, desejos e alegrias!
(Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" Cantiga do Só " 2a edição 1968 )
*****************************************