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Quatro Sonetos ao Soneto "

   
I

O soneto é uma taça de cristal
que o Poeta - esse artesão de sentimento –
trabalha com paciência sem igual,
para sua alegria e seu tormento !

Misto de Vida e sobrenatural
o impele a esse trabalho num momento,
- e o amor, e a morte, e o sonho, e o bem, e o mal,
são a causa do seu cometimento.

O soneto é essa taça onde derrama
toda a sua alma, - em risos ou em prantos –
quando sofre, deseja, anseia, ou ama...

Ó taça misteriosa de ambrosias !
Quantos de ti se servem, com seus cantos,
e, entretanto, tu nunca te esvazias !

II
Fino frasco de forma nobre a pura
e ao mesmo tempo taça de cristal,
- onde a vida, em beleza se emoldura
e canta como um órgão musical.

Em transe, o Poeta sempre te procura
para desabafar, sentimental,
seu pobre coração que se amargura
ou seu canto de amor belo a triunfal.

Cabe em ti, tudo quanto em nós palpita,
tudo quanto se sonha ou se concebe
- a finita emoção, a alma infinita...

Vinho de uva da Vida que se pisa,
- és, a um só tempo, a taça em que se bebe,
e o frasco em que a beleza se eterniza!

III
Escadaria e templo da Beleza!
Por teus degraus, em penitência, quantos
tentaram com seus versos e seus cantos,
conquistar tua estranha natureza.

São catorze degraus, - de desencantos
e sonhos, - de alegria e de tristeza, -
e a alma subindo, e cada vez mais presa,
despojando-se aos poucos de seus mantos.

Templo de anseios ! Partenon da Vida!
Por teus degraus, as almas, em subida,
te exaltam nos ofícios mais diversos...

Eis que também cheguei - como um Rei Mago,
e o coração de um poeta é o que te trago
no culto fiel destes catorze versos!

IV

Misto de Partenon e Catedral
por dóricas colunas sustentado;
templo de mil imagens, trabalhado
com o mais nobre, e o mais puro material.

A palavra é o seu sino e o seu vitral,
o mármore em que deve ser talhado, -
e a inspiração - o doce sopro alado,
"fiat lux" do espirito imortal !

Templo de minha crença e de minha Arte,
também eu te construo, e me prosterno
e me ajoelho para celebrar-te

com a minha fé e as minhas heresias,
e aos pés do Amor, que é o Deus único e eterno,
rezo magoas, desejos e alegrias!


(Poema de JG de Araujo Jorge -  do livro
" Cantiga do Só  "  2a edição 1968 )


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