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Poema às Irmãs
                        de Ana Nery "


   

A Vida é a sua missão...A Vida que vacila
as vezes, como trêmula chama
sem ar...

E ela ali está, com suas mãos em concha, em prece,
a proteger a pequenina chama que parece
querer se apagar...

Silenciosa e grave, lírica e dramática
em sua humildade,
desliza entre máscaras trânsidas de dor
como um aceno de felicidade
ao desespero humano...

(A branca paisagem de gemidos e angústias
é o seu cenário cotidiano. )

Cronometradamente se movimenta
em seu mundo,
como se os leitos fossem os números de um imenso mostrador,
e ela, - um ponteiro atento, a marcar cada segundo
de alivio ou de dor.

Vigia de sofrimento, seu gesto pronto e constante
enxuga o suor, coloca a sonda, tire a febre, ajeita o travesseiro,
aplica o soro,
reza um terço,
- dá o banho no homem inútil (sem sexo, por semanas e meses)
às vezes, simplesmente um ser humano em suas mãos,
- como uma criança num berço.

Está sempre presente, imperceptível, até mesmo no sono
ou na inconsciência,
com solicitude e presteza,
no cuidado que vela, na agao que protege, na providência
salvadora,
atenta como uma luz sempre em vigília, acesa...

Sua presença é uma lívida alvorada
na noite do medo ou da angústia, quando a vida
é um quase-nada ...

Branca a macia, a como um lenço
que enxuga o pranto (de dor ou de alegria),
- como uma asa no céu que traz paz e esperança,
- como a terra, no mar, a acenar alegria
e segurança...

Pequena a frágil, em sua luta silenciosa,
possui ignoradas forças para a mais desproporcional
de todas as batalhas;
e sozinha, (com a coragem dos heróis, o desprendimento dos santos,)
enfrenta e vence a morte, tantas vezes,
sem alardes de gloria,
sem algazarras triunfais,
sem prêmios e medalhas !

Nao conhece repugnância nem temores
se esta em jogo a existência;
sentinela de guarda, da paciência,
em seu branco uniforme de Noiva da Dor,
sua missão é a mais bela jamais conhecida:

- dar conforto e alegria, alívio, esperança
e amor
à Vida!


(Poema de JG de Araujo Jorge -  do livro
" Cantiga do Só  "  2a edição 1968 )


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