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" Nas Noites Frias "
Nas noites frias,
embarco em minhas lembranças...
Lembranças que me levam aos cabarés de Leandro Arlen,
numa velha Buenos Aires, que nem sei mais se existe,
sob as arcadas sem luz, os tangos quentes,
os vultos dos marinheiros,
os navios à distância...
" ... amores de estudiantes
flores de un dia son..."
Aos cafés fumarentos do Havre e de Anvers,
ao frio da Mancha, impregnado de mar
a gelar os ossos,
e os grandes copos quentes de café
com seus hálitos fumarentos, a nos aquecerem
as mãos e o coração...
As tasças lisboetas do Bairro Alto,
- a Mouraria, com seus trinados de guitarra
e seus fados lamurientos,
o vinho espumando nos copos junto as grandes pipas;
as "bródias" pelas madrugadas de Coimbra
de capa preta aos ombros, declamando poemas
para embalar os sonhos do Mondego...
As castanhas quentes nos bolsos, compradas nas carrocinhas
naquela noite fria de Vigo;
as alegrias de braços dados, das noites de Berlim,
com a Linda "fraulein" do Werthein, que punha Beethoven
nos joelhos na Philarmonie,
e ria depois nas bocas dos canecos de cerveja
e tinha doces rosas nas faces, como copos de "Johanesbeer-wine".
As noites frias
me levam para portos distantes,
para cidades - que ficaram nos mapas lendários
da minha adolescência,
quando, sem ancoras, fui vagabundo;
me levam aos cabarés, aos cafés, aos hotéis de portas rodantes,
onde os homens são sombras de cachecol
com hálitos fumacentos,
e as mulheres tem olhos azuis, brancas mãos,
e falam inteligíveis ternuras nos idiomas mais estranhos.
As noites frias
desnacionalizam meu coração...
Me carregam para longe,
para tão longe, - que nem me reconheço mais
que nem sei mesmo se estas paisagens embaciadas
são a minha vida,
ou lembranças de uma outra encarnação...
Nem sei mesmo se esse vulto que percebo a distancia
numa esquecida história,
sou eu mesmo
(pobre fantasma de um marinheiro morto
a vagar pelos vazios conveses da memória... )
(Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" Cantiga do Só " 2a edição 1968 )
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