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" Meu Atomóvel "
Já tenho meu automóvel,
estou cada vez mais longe da Rússia...
Vou buscar a paisagem, basta estender a mão,
ela agora é um livro na minha estante.
Agora poderei ler melhor as estradas, as montanhas, as árvores,
oh, as árvores ! minhas amigas que sempre debruçam sombras
sobre meu caminho,
poderei ler as águas que escrevem no chão
a sua música, que se compõe a se desmancha ininterruptamente
numa alternância de efêmero e eterno.
Agora poderei ler as montanhas : já não serão inacessíveis,
não ficarão no horizonte, não me acenarão a distancia
seus lenços brancos, inconstantes, etéreos,
vou encontrá-las e percorre-las, e meu automóvel há de acariciá-las
com um amoroso e deslumbrado estremecimento
pelas suas curvas estradas, devassando-lhes os mistérios...
Agora poderei ler todos os poemas que o mar escrever
pelas areias brancas das praias:
- as amplas praias brancas, como acenos de Deus,
ou as pequenas praias das curvas enseadas
como acenos de mulher...
Agora, quando o tédio bater a minha porta,
às vezes invencível, asfixiante, derrubando-me inútil em meus nervos,
em nocautes cada vez mais freqüentes,
meu automóvel será a espátula milagrosa e providencial
com que abrirei os livros das mais imprevistas paisagens
e gravuras,
cheios de histórias e gentes,
roteiros para ansiadas aventuras,
quem sabe se diferentes?
(Permanecerão tentações apenas as ilhas,
todas as ilhas, longe, nos horizontes, sem pontes...
À espera de helicópteros...
Nesse momento, entretanto, em que me aposso da terra
como duma mulher que já não se cobre,
que resta alguma coisa ainda por conquistar:
- as ilhas, pura imagem do sonho.)
Merece este poema o meu automóvel.
Confesso que nunca o imaginara, nunca fizera parte de meus planos,
talvez o julgasse inacessível, como um alto cume de montanha.
Entretanto, construi-o devagar, peça por peça, sem saber
que era um automóvel,
e um dia, de repente, ao junta-las vi que era um automóvel,
que eu também podia ter um automóvel
embora não o recebesse como tanta gente, pronto, pré-fabricado.
Nunca fizera parte de meus planos, nunca fora esperado sequer,
mas de repente, descobri que eu também poderia ter um,
construído sem saber, apenas com idéias, palavras,
material do meu trabalho de cada dia,
e por isso, só eu sei o quê, além de meu corpo,
ele levará sobre as suas quatro rodas.
Ja tenho o meu automóvel
estou cada vez mais longe da Rússia,
(ou não?)
Quem sabe se, algum dia, eu e todos os homens
poderemos chegar até a Rússia de automóvel?
(Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" Cantiga do Só " 2a edição 1968 )
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