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Meninazinha da Serra "
                                                                          ( À estaçãozinha de Teodoro de Oliveira,
                                                             no alto da serra de Friburgo. )
   

Meninazinha triste do alto da serra,
com seus pés descalços, sujos de carvão,
com seu vestido de nuvens,
tiritando de frio,
seus olhos nevoentos
e seus cabelos ásperos de invernos e de ventos...

Meninazinha triste do alto da serra,
que olha com melancolia o trenzinho parar,
o trenzinho que chega cansado, bufando, apitando,
a sineta badalando dentro do nevoeiro, a avisar, a avisar...

Meninazinha triste do alto da serra,
entre cinzentas montanhas,
numa paisagem irreal, sem sonhos a alegrias...
Com seus olhos molhados, sempre baços
como as vidraças do trem nas noites longas
e frias...

É assim, no entanto, que eu gosto de ti,
com um raro sol conta-gotas a pingar claridade
fugidia,
como um doce fantasma cuja presença
não assusta as crianças...
e te enche de poesia...

Meninazinha de pés tão sujos
e olhos tão tristes,
tão tristes...
Depois que me vou, a te deixo perdida
entre nuvens, sozinha, tranqüila, esquecida,
às vezes penso que tu nem existes...
* * * * *

- Hoje não existe mais a estaçãozinha de Teodoro de Oliveira.
O Governo retirou os trilhos da antiga Leopoldina,
e não há mais trens para Friburgo.
JG.


(Poema de JG de Araujo Jorge -  do livro
" Cantiga do Só  "  2a edição 1968 )


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