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Introdução e Cantiga
                                        para Valão do Barro "


   


Quarta-feira, dia 26 de julho de 1961,
tomei um banho de Brasil,
um banho de pó e de lembranças.

(O ônibus rodava pela estrada de terra:
era um "cometa" deixando no ar uma cauda de poeira.)

- "É aqui. Num qué chegá um pôco?
- Fica pra outra veis.
- Intão, boa viagem. Vá cum Deus.
- Té a vorta. "


Meus Deus, a minha infância!
Carro de bois na estrada, carregado de cana,
moleque de pé no chão acenando pra gente.

Um enterro passando, (o enterro mais alegre do mundo)
caixão vestido de chita estampada, como moça que vai
pro baile.
Quatro crioulos carregando, dançando, correndo,
( o chão pegando fogo!)
- tinham pressa de levar o defunto pro céu.

( Mais atras, dois cavaleiros,
todos dois chapéus na mão,
e um terceiro sem cavalo:
era o que ia no caixão... )

Currais na beira da estrada, bois pachorrentos
ruminando o tempo,
o touro cheirando a novilha sem nenhum respeito
pelas "donas", do ônibus, assistindo
pelas crianças espiando.

Cheiro bom de cana espremida, cheiro doce
de garapa escorrendo na moenda,
um hálito acre de tachada de mel fervendo,
- bafo de engenho!

Meu Deus, a minha infância:
bois mugindo, ruminando,
porteiras velhas rangendo,
currais, a terra manchando,
moendas de cana, gemendo,
carreiro agitando no ar o espigão,
mulher de saia enganchada no lombo do cavalo.

Goiabeiras; goiabeiras!
e ainda existem goiabeiras!

II

Valao do Barro não tem nenhuma rua calçada,
não tem cinema,
não tem clube,
não tem televisão,
não tem estaçãozinha de trem...

Mas Valão do Barro
tem moça bonita como qualquer lugar:
vi uma na janela, de costura na mão,
e outras na rua, calças justas, "blue-jean",
(a juventude transviada chegou de ônibus a Valão do Barro. )

Valão do Barro
não tem nenhuma rua calçada,
nem praça bonita com coreto,
nem sei se tem prefeito.

Valão do Barro é de barro mesmo.

Mas tem uma igrejinha branca que a poeira
não consegue encardir,
e uma pracinha de árvores desalinhadas pisando nos canteiros,
aconchegando densas ramagens como grande xale,
e cochichando em grupos, como comadres.

Valão do Barro não tem estaçãozinha de trem
não tem cinema,
só tem padre duas vezes por semana, para arrumar as vidas
e os corações,
e tem sempre mangueiras carregadas de sombras
nos quintais...

Ah, mangueiras, mangueiras !
E ainda existem mangueiras!

- Que farão as moças de Valão do Barro?

-- Farão meninos como todas as moças,
meninos que estão na rua correndo,
meninos que estão espiando os passageiros do ônibus,
meninos que um dia serão homens e mudarão, quem sabe?
o nome de Valão do Barro pra Valão do Asfalto.

Quarta-feira, dia 26 de julho de 1961,
tomei um banho de Brasil !

Estou alegre. estou limpo,
porque me encontrei,
estou triste porque sofri,
porque me lembrei.


(Poema de JG de Araujo Jorge -  do livro
" Cantiga do Só  "  2a edição 1968 )


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