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"
De Repente Feliz "

   
De repente
sou um homem rico e feliz
dentro da noite.

Percebo que todos, ou quase todos, dormem,
e o silêncio da madrugada é o meu único companheiro
e o sinto em expectativa, ao meu redor...

Estou lendo o meu jornal depois de uma sessão de cinema,
e me encontro com o mundo, - vago mundo – quase sem
preocupações.

De repente
estas cansadas manchetes políticas me parecem estranhas
como se estivessem em idioma desconhecido,
estes telegramas, estas notícias, vem de Marte talvez,
porque me falam de outro mundo

De repente
percebo que estou só, que respiro, que estou bem,
e porque percebo isto, - paro de ler para tomar plena consciência
de que existo,            ,
de que respiro, de que estou bem,
neste momento feliz, sem nenhuma importância

E me levanto, para descobrir            
a beleza da noite distante pela janela aberta,
a noite nova e desconhecida, com o olhar de um cego
que subitamente pudesse ver.

Esta noite, este silêncio, - até este jornal,
que subitamente nada me diz, -
esta ausência de tantos,
me fazem rico de repente, porque me encontro.


E só por isto, sem nada dizer, tomando a noite e o silêncio
aos goles, como um gaúcho seu chimarrão,
me deixo ficar comigo mesmo, tranqüilo, tranqüilo, tranqüilo,
a saborear estes instantes de infinita a imprevista paz,
a saborea-los, lenta a demoradamente...

E não me levo pra cama, até que me desperto novamente
homem pobre e triste como tanta gente...


(Poema de JG de Araujo Jorge -  do livro
" Cantiga do Só  "  2a edição 1968 )


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