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"Carta ao Futuro de Meu Filho"



Meu filho:
- o que realmente espero é que o teu mundo
seja um mundo melhor, um mundo mais humano;
que ao pensares um dia, no destino de teus filhos
não pesem as preocupações, que, por ti, me consomem.

O que realmente espero é que o teu mundo seja
um mundo limpo de caridades, de esmolas e de afrontas,
um mundo em que a vil exploração do homem pelo homem
será um capítulo da história de que ninguém se lembrará.

O que espero, meu filho,  é que o teu mundo seja
o daqueles que poderão plantar para colher,
(só os frutos, porque as águas, os pássaros e a terra,
Deus as pôs antes deles, e só a Deus pertencem.)

Que o teu mundo, meu filho, seja apenas um mundo
de necessidades e aspirações, como o pão partilhadas
em torno à mesma mesa onde todos se sentarão.

Que haja apenas a lealdade, vencida a avareza
- filha bastarda da Fortuna, essa mãe de infortúnios, -
e que a cega ambição, velha irmã de Caim,
capaz de tantos crimes, seja cristianizada.

Que tu vivas em paz com teus filhos, teus sonhos,
construindo cada dia, sob os olhos de Deus,
a  alegria de possuir o que não falte a ninguém
e te baste para seguires sem medo, e sem remorsos.
O que espero, meu filho, é que teus filhos, meus netos,
tenham direito ao livro e à saúde, como o ar
ou o sol, ou ao chão dos caminhos sem donos,
que possas te sentir feliz, sem perceberes
estas duras jornadas que esmagam tantos ombros
para que tantas vidas sigam fáceis e inconscientes.

Que a tua liberdade seja realmente liberdade
de viver com dignidade, sem a presença da miséria
a te cercar, como um libelo, sem que todo o teu empenho
possa apagar da terra essa mancha dos tempos.

Que não tenhas, meu filho, de assistir tal como eu
o esforço dos escravos do trabalho explorados
tantas vezes, sem querer o reconhecimento necessário,
sob o chicote do Dinheiro - o avarento Feitor.

O que o teu mundo possa ser, de verdade, um mundo livre,
de homens livres da insegurança e da hipocrisia, livres
principalmente da mistificação da liberdade.

(Ó santa liberdade, há três séculos arrastada
ao prostíbulo da burguesia, indefesa e submissa!
Gordurosa liberdade, como guardanapo de banquete
servindo aos empanzinados, - de alma e de estômago, -
iludindo aos que tem fome, em hinos e discursos,
e nas manchetes dos jornais impressos em cifrões!)

Que o ódio não resseque o teu coração, e o amor
seja como a água fresca num cântaro de barro
como água fresca manando da dura pedra a cantar,
enchendo de música o mundo e de alegria a vida,
e de vida e de música a hora fraterna de sede.

Que não te sujeites aos ideais da riqueza,
pobre riqueza dos homens angustiados e intranqüilos!
Que não te sujeites nunca a essa riqueza! E aspires
à suprema alegria de ser justo e ser bom,
e desejar para todos uma vida feliz,
pois que a tua felicidade é uma parcela
e nunca se chegará a uma humanidade feliz
somando-se homens felizes, tristes e desgraçados.

Que nunca te falte a coragem de seguir sozinho
nessa luta por todos, mesmo que todos te deixem,
e que nunca te sintas só em companhia da tua consciência.
Que teus filhos, - meus netos - herdem apenas a alegria
de ser humano, de ser igual, de ser livre, sabendo
que nada somos, que nada temos, que nada levamos,
e que a Vida é afinal essa comunhão inumerável
em que todos se sentem irmãos na mesma e grande Família.

O que realmente espero, é que o teu mundo, meu filho,
seja um mundo apolítico de comunhão e de amor,
de união de todos para que nada falte a cada um,
e de respeito a cada um, para que haja a união de todos.

Que em teu mundo, meu filho, se escolham os mais capazes
e os melhores... e os que trouxerem o destino da direção
conduzam, sem privilégios, sem necessidade do Poder.

Que o teu mundo, afinal, possa ser esse mundo
em que serão puras realidades esses desejos meus,
o mundo dos homens que não se envergonhem de ser homens
ante os seus próprios olhos...  e ante os olhos de Deus!

( Poema de J. G. Araujo Jorge,
in " Cantiga do Só " - 1964 )


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