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" Cantiga do Só "


A gente vai subindo
passo a passo,
mais pedra, mais espaço,
menos pó...

E a gente vai aos poucos
se sentindo
mais só...

A vida está mais longe
mais lá em baixo,
perdidas vão ficando as esperanças,
o vento mói as nuvens
faz lembranças
em sua imensa mó...

E a gente vai subindo,
vai andando,
e a gente cada vez mais
vai ficando só...

O perto é turvo; o longe é que é mais lindo,
e um ar mais frio vai nos envolvendo
e um silêncio maior
cresce ao redor;

- e mais curva, e subida, e mais caminho,
e ao se rever o que ficou de cor,
o coração sozinho
vai sentindo
que a gente continua, vai seguindo,
mas cada vez mais só...

Segue-se em vão, a estrada do cansaço,
o coração mais lento, o olhar mais baço,
o mundo é um vago azul, não causa dó;

nesse subir que já não vai subindo,
com os pés, as mãos, o peito, enregelados,
olha-se em torno: não há chão em lados,
não há céu, não há sonho, não há pó...

Então se para... Não há mais subida,
não há volta também, não há descida,
e a gente fica só...

... completamente SÓ...

( Poema de J. G. Araujo Jorge,
in " Cantiga do Só" - 1964 )


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