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 "
Tudo Igual "


I

Oh, o tédio de viver enclausurado sempre entre as mesmas casas
já tendo calculado o angulo de todas a esquinas,
e acompanhando sem perceber os andaimes que sobem
em cada nova construção,
- tudo igual, sempre igual, nessa eterna presença de todas as horas
que se vão,
e nem se pode dizer à cidade que vive, luta e se transforma,
ao encontro permanente de cada hora perdida:
mas como está crescida!

Tudo igual!
- a mesma arquitetura, os mesmos edifícios,
os mesmos hábitos, os mesmos gostos,
os mesmos vícios,
e os eternos prazeres e desgostos,
tudo igual!
- a mesma tristeza, a mesma alegria,
a mesma música, a mesma pintura,
a mesma poesia
(sem gênio para a criação; sem vôos, sem liberdade
para a criatura),
tudo igual!

- as mesmas mediocridades
o mesmo "disse-me-disse"
intelectual;
- as mesmas vaidades
a mesma mesmice
sentimental;
tudo igual!

Ou então, por toda parte:
a mesma falta de arte!

II

E saber que pelos menos há extraordinárias viagens,
caminhos, lá do outro lado, a descer as montanhas,
costumes de exóticas roupagens
e artes nativas e estranhas,

- povos balbuciando ignoradas vogais
em esquisitas linguagens,
e hábitos que hão de lembrar curiosos carnavais
na alegoria feliz de nunca - vistas paisagens...

Tanta coisa que ver, que sentir, que observar
para além do horizonte, para além do mar...

Mundos de sugestões visuais
rítmicas e plásticas,
cidades diferentes
de história quase fantásticas,
e gentes
de raças bizarras e originais!

Tanta coisa que ver, que sentir, que observar
para além do horizonte, para além do mar...


 
( Poema de J.G . de  Araujo Jorge
extraído do livro "Cânticos" - 1941) 


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