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 "
Canção Rotineira "

E... eu a cumprimentar sempre as mesmas pessoas conhecidas,
a atropelar os mesmos transeuntes desconhecidos,
a ler sempre os mesmos jornais,
a trocar o mesmo mil-réis,
e a tomar todas as tardes, com os mesmos amigos de sempre
o mesmo café
nos mesmos "cafés"...

Dar dois passos: "- alô! Que há de novo? Aonde vamos?"
E adiante: "- que tem feito? Como tem passado?"
E nada existe de novo, nem vamos nunca
pra lugar nenhum,
se ficamos onde estamos
e se está tudo parado...

No entanto é sempre assim, o mesmo refrão comum
" - como vai? Que trem feito?
e ultimamente
por onde tem andando?"


Positivamente
não se tem ao menos o direito
de dar um ai!
sossegado...

E a ouvir sempre: "- boa noite!" E a ouvir sempre: "- Bom dia!"
Os mesmos cumprimentos, o mesmo idioma, as mesmas caras,
nada diferente!
um dia passa em carbono a mesma fisionomia
do outro dia,
neurastenia! neurastenia!
diariamente...

"- Vou ,muito bem, obrigado!"
"- Vai-se andando por aí!"

Oh! A vontade de responder: - está tudo parado!
Mas se lhe importa saber afinal
meu estado:
saiba que já morri!


 
( Poema de J.G . de  Araujo Jorge
extraído do livro "Cânticos" - 1941) 


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