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 "
Pureza "


Vinde, ó mulheres puras!
Trazei a vossa beleza cheia de gestos ingênuos, ternuras
e recatos,
e vossa carne adolescente que desconhece contatos,
e vossos lábios cerrados que não provaram beijos
e vossos olhos claros nunca turvados pela sombra dos desejos!

Trazei-vos a vós mesmas, afinal,
nos vossos corpos virgens, nos vossos braços,
para a tatuagem sentimental
dos meus desejos
e dos meus abraços!

Trazei as vossas formas desconhecidas, para a curiosidade e as loucuras
das minhas mãos,
e os livros de páginas fechadas dos vossos corpos inéditos
para os meus olhos que se cansaram de relidas
e estragadas
brochuras,
- vinde! trazei as vossas ânsias irreveladas
e as vossas vidas,
ó mulheres puras!

Trazei à noite dos meus sentidos perdidos em brumas
a alegria dos vossos contornos cheios de ondas e espumas
e das vossas carnes mornas e enluaradas...
- vossos olhos serão estrelas num trecho azul da noite
entre nuvens serenas,
e eu já não seguirei entre sombras apenas
e lampiões de olheiras roxas e viciadas!

Deixai que eu me purifique em vossos braços
e mergulhe a cabeça em vossos seios
e desmanche com as mãos vossos cabelos!
Ensinai-me orações, pra que eu as possa dizer
aos vossos ouvidos,
orações de amor puro, feitas de anseios
e desvelos!

- deixai que purifique os meus sentidos
encardidos!

Que eu quero a pureza,
quero a beleza,
quero a luz,
quero o sol,
quero o calor!
- dos vossos lábios puros,
dos vossos corpos nus,
do vosso imenso amor!
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Vinde! E as minhas mãos despertarão em vossos sentidos
as melodias ignoradas dos vossos instintos,
e acenderão em vossas carnes adolescentes
lampejos
ardentes,
E os vossos lábios sangrarão retintos
aos meus desejos,
e os vossos seios florirão aos meus lábios famintos
de beijos!

As minhas mãos "virtuosas", onde tumultuam tantos sentimentos
e tantos seres
acordarão em vossas formas suaves
cheias de gestos de aves,
e em vossa carnes rijas e macias
as alegrias do amor, as supremas alegrias
de todos os prazeres!

Acordarão em vossos corpos todas as indizíveis delícias,
e meus dedos nervosos saberão compor
"prelúdios" de carícias
e "noturnos" de amor!


Vinde! E eu improvisarei sobre o teclado branco desses instrumentos,
nos mais delirantes momentos,
os mais delirantes motivos
de amor,
e ficará ressoando nos infinitos mundos
obscuros
dos vossos ventres fecundos
e puros
a melodia imortal do meu sêmen criador!


 
( Poema de J.G . de  Araujo Jorge
extraído do livro "Cânticos" - 1941) 


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