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" Poema Nº 11 " ( Olhares Que Identificam )
I
Oh, o tédio de encontrar sempre olhares que nos identificam
por todo lado,
sussurros que vulgarizam nosso destino
e despem nossa vida e nossa intimidade...
- e incomoda sensação de que somos um livro folheado
pelas mãos curiosas da cidade...
Sabem meu nome, o teu, a minha vida, a tua,
sabem o nome do bairro, sabem o nome da rua
em que moramos,
e o nome das mulheres que ao acaso encontramos;
aquelas a quem queremos
e as outras, que desejamos...
- e onde vivemos
e onde trabalhamos,
sabem tudo e de tudo: onde há pouco estivemos
e aonde amanhã nós vamos...
Sensação de ter rodas e viver sobre trilhos
numa exígua e acanhada linha circular,
sempre o mesmo percurso, o mesmo ponto final, a mesma estação
do lar...
II
No entanto... Há pelos céus o canto metálico dos aviões libertados,
asas abertas, alucinadas,
deixando para trás o lastro colorido de terras e paisagens
sempre novas e estranhas,
- zombando da altitude das montanhas
e acordando horizonte assustados
de cidade em cidade
noite e dia,
na dinâmica magia
da velocidade!
Oh, o tédio de sentir que a vida passa longe, voa alto!
- e nós ficamos cá embaixo
com os pés pregados no asfalto!
- e nós ficamos cá atrás...
- o tédio dos patos sem asas dos terreiros, dos galos retóricos
dos quintais!
E das manadas passivas, pastoreando presas
nos currais!
( Poema de J.G . de Araujo
Jorge
extraído do livro "Cânticos" - 1941)
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