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" Cântico Dos Cânticos - IX "
A minha alma é pagã, Senhor, e eu sou ateu!
Sou aquele no entanto que te compreendeu,
e propaga as belezas dos ensinamentos
por cujos sãos princípios tantos sofrimentos
tivestes que curtir; sou aquele que ainda hoje
muito embora da vida e dos homens se enoje
continua na crença de que cedo ou tarde
chegaremos a ti...
É que no mundo ainda arde
a chama que acendeste, - a chama rubra e ardente,
que em muitos corações crepita intimamente!
Não é minha nem tua, a falsa religião
das sacras barbarias de uma Inquisição,
que se antepondo à ciência inutiliza as ânsias
do progresso, a embuçá-la em sombras e ignorâncias;
e ainda aplaude a nação senil que os filhos seus
incita ao ódio e o crime em nome de algum deus!
Tu disseste, Senhor: "Não matarás!..." Parece
que escuto a tua voz como um rumor de prece
e penetro o sentido do teu misticismo!
Hoje, tu lutarias contra o imperialismo
que reduz certos povos como os de outras eras,
às condições de vida em que vivem as feras!
Teu gesto se ergueria contra a prepotência,
pelo direito ao lar, ao pão, pela existência,
e pelo bem maior que encontramos na vida:
- a nossa liberdade... E a tua voz perdida
seria igual à minha, a falar para o caos,
ao silêncio dos vis, e à incompreensão dos maus!
( Poema de J.G . de Araujo
Jorge
extraído do livro "Cânticos" - 1941)
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