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 "Cântico dos Cânticos XIII"

Eles querem que eu cale, Senhor, é o receio
pela voz que se eleva e desconhece freio
de qualquer interesse, e arranca a hipocrisia
que cheira a bastidos de altar, a sacristia,
e diz alto, e dizendo bem alto de tudo,
dá-lhes certo a impressão de quem ficou desnudo
ante um olhar estranho... Odeiam-me por isso
Pouco importa! Sou livre e não nasci submisso!

E se um pouco afinal a mim mesmo conheço,
sei que não trago ao peito pendurado um preço
nem nunca o meu ideal joguei no lixo; quem dá mais;
nem vendo a minha fé, e nem serei capaz
de ergue-la em meu sentir sobre o alicerce indigno
da exploração alheia!
É em vão! Não me resigno
ao silêncio! E talvez, imprevidente e incauto,
cada grito que solto é cada vez mais alto!

E se me ouves, Senhor, se escutas este grito
lá da distância azul, na ilusão do Infinito,
tu que encarnaste um dia a perfeição e o Todo
e sentiste o maligno efervescer do lodo
da incógnita criação, - por certo não te assombras
- pois matou-te esse horror que tem a luz as sombras!

Caminho; sigo à frente, - e me embaraço e perco,
tonto da odor que sobe do estagnado esterco,
mas ainda encontro forças, ao fitar tranqüilo,
o sol rompendo a nuvem que tentou encobri-lo
e apagá-lo dos céus.

O sol que, triunfante
desaparece aqui para surgir adiante!

Sigo à frente, Senhor, e hei de avançar assim
já que sinto esta chama acesa dentro de mim,
e se tal como tu, for vencido na luta,
com pena da planície onde há sangue e onde há pus,
erguerei sem tremer a taça de cicuta
ou buscarei eu mesmo os braços de uma cruz!...



   (Poema de J. G. de Araujo Jorge
extraído do livro Cânticos - 1941)

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