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  Cântico Dos Cânticos - I "

Senhor!

A minha alma é pagã e eu sou ateu!
Sou aquele no entanto que te compreendeu
no sentido profundo dos ensinamentos
que espalhaste no mundo.

Eu prego os sentimentos
por que um dia morreste entre ladrões na cruz!

Falo de paz e amor, de pensamento e luz,
e a palavra que escrevo em seu âmago encerra
um protesto à violência, ao despotismo, à guerra,
e aos vis e sempre vis mercadores do templo!
O teu vulto sereno e esplendido contemplo
com o mesmo olhar consciente, simples e sincero,
com que leio Platão, com que admiro Homero,
com esse olhar que demoro sempre sobre o vulto
De um Sócrates ou um Nietzsche!

É eterno este meu culto
pelos que têm luz própria, e são astros, são sóis,
e dão rumos na sombra tal como os faróis;
pelos que foram grandes, pelos que são grandes,
os que marcam na história os relevos dos Andes
sobre as planícies chãs, os desertos vazios;

pelos que, gigantescos como os grandes rios,
passam por muitas terras sem olhar fronteiras
e unem povos e raças sem erguer bandeiras;
pelos que, como os céus infinitos, profundos,
na imensidão do azul contêm todos os mundos,
e os que afinal criaram para os pigmeus
o cabresto da fé e o chicote de um deus!

E é por esta razão, Senhor, e só por isto
que não creio em Jesus mas falo em Jesus Cristo!


 
( Poema de J.G . de  Araujo Jorge
extraído do livro "Cânticos" - 1941) 


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