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 "
Últimos Acordes "

I

E um dia...

Ébrio de liberdade, um dia, quando eu chegasse ao fim
de todos os caminhos
nas terras mais ignotas,
subiria ao cume mais alto da última montanha que ainda houvesse
para escalar,
ou, quem sabe? - procuraria o segredo dos caminhos e das rotas
perdidas no mar...

E desnudaria os derradeiros horizontes dos seus últimos véus,
e lá da altura, pelas encostas, abraçaria a última paisagem
à hora em que o sol mergulhasse nos céus...

E iniciaria então a audaciosa conquista
da última viagem,
eu que não creio nunca que exista
uma última viagem!

E voltaria ao seio quente da terra (país universal
de todos os caminhos perdidos!)
- para que a minha carne, para que os meus nervos, para que o meu sangue,
para que os meus sentidos
continuassem no movimento dos rios, dos mares, das folhagens,
transubstanciado eu próprio em caleidoscópicas e infinitas
paisagens!

Nessa hora... (quando o Sol rezasse sobre as encostas
a última prece de luz do missal desse último dia;
e as sombras se ajoelhassem de mãos postas)
- as minhas próprias ânsias eu libertaria!

Oh, o infinito prazer de libertá-las... de perde-las!
- para que ao último olhar, aceso pela última chama
de alegria
pudesse vê-las no céu, pudesse vê-las
numa elegia,
libertas das mãos humanas, onde viveram
na predestinação das ânsias que nasceram
para ser estrelas!
...................................................

Ao chegar ao meu fim
quisera morrer assim...

II

Mas se por estranho desígnio ou por fatalidade
a morte me encontrasse em meio do caminho
ou talvez no burburinho
de qualquer cidade,
- quisera que cremassem meu corpo! E meus nervos, e minha carne
e meus sentidos,
na elegia das chamas multicores
aureolando os derradeiros estertores,
retornassem ao pó...

O meu último desejo seria: ficar só...
Nada de flores, nada de prantos, nada de séquitos
funéreos,
e nada de cemitérios!

III

A minha última vontade seria esta:

- que um avião me elevasse aos céus, e sobre uma montanha distante
ou uma longínqua floresta
(quando surgisse o Sol, que os rubros portões do dia
de par em par escancara
e descerra,
para todos os homens sem senhores)
- pulverizassem no ar as cinzas do meu corpo!
E então eu desceria
feito luz, feito sol, na manhã clara,
para aquecer a terra
e fecundar as flores!
......................................

Que ao chegar ao meu fim
- quisera morrer assim...


 
( Poema de J.G . de  Araujo Jorge
extraído do livro "Cânticos" - 1941) 


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